Crítica | AFTER



★★★★

A estrutura de reimaginação das faixas originais garante acertos incríveis em um disco que funciona como um lembrete do excelente trabalho da música nacional de vanguarda.

AFTER consegue traçar uma estrutura de reimaginação, como se cada faixa fosse profundamente tocada pelo nome responsável por sua transmutação. É uma obra que expõe o dinamismo de Noitada, muito criticado injustamente.

Nesta versão, porém, mesmo os problemas mais superficialmente odiados por algumas pessoas, como a duração das músicas e a duração geral do disco, são abafados pela produção que dispensa avaliações. Na imensidão eletrônica do material, o mais incrível de tudo continua sendo a intenção de viajar pelos sentidos noturnos de canções feitas para a pista de dança.

Aqui, o destaque é óbvio: “Calma Amiga”, com DJ RaMeMes e DJ Tonias, cuja duração aumentou por pura pressão social, digamos assim, de fãs e pessoas que se surpreenderam com a qualidade disruptiva da produção anterior. Muitos dos elementos presentes no restante de AFTER, por exemplo, podem ser resumidos nessa música.

Completando o pódio, "Kaosdeado", com produção assinada por Mílian Dolla, se descola da composição original, ganhando uma dezena de sonoridades diferentes que, ao serem convertidas, cobrem um aspecto difuso das demais canções, percebe-se o comprometimento da produção em contradizer expectativas e sobrepor texturas que conseguem não só renovar, mas incrementar novos significados à música.

Outros destaques como "Descontrolada", de Cyberkills, também cumprem um papel importante na proclamada intenção noturna do disco. Os versos de Jup do Bairro, ora divertidos, ora surreais, dão chance ao sexo, que também foi reforçado pela presença de MC Naninha e Irmãs de Pau. É, portanto, o ponto objetivo que por vezes faltou em Noitada.

O álbum erra, porém, ao pender para os arranjos superficiais da música eletrônica, como a influência do psytrance no final do disco, e também, na versão pouco inventiva de "Penetra", de Pedro Sampaio. E mesmo que puxem o trabalho para baixo, esses pontos nada mais são do que a liberdade artística que cada produtor teve.

Indo além do surpreendente pelo excelente aproveitamento desses nomes, que souberam equilibrar sonoridades densas à proposta acessível do álbum original, AFTER é mais um lembrete de que a vanguarda eletrônica da música brasileira, composta principalmente por nomes do funk, ainda pode surpreender. Basta ganhar espaço, como foi feito aqui.

Selo: Sony Music Entertainment Brasil
Formato: LP
Gênero: Pop / Eletrônica, Experimental
Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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