Crítica | Zig



★★★★

Zig flerta com o industrial de maneira excepcional, criando um dos discos pop mais singulares lançados esse ano.

Poppy teve uma trajetória artística curiosa. Ela ganhou notoriedade fazendo vídeos enigmáticos no YouTube nos quais se apresentava com uma personalidade doce. No entanto, ela foi cada vez mais mudando para uma nova imagem e sonoridade à medida que se tornou muito interessada na cena rock. O álbum Am I A Girl?, por exemplo, embora fosse majoritariamente electropop, teve alguns momentos de flerte com o metal alternativo que mostraram o interesse da artista pelo gênero.

Já em lançamentos que vieram depois, ela apresentou uma exploração mais intensa do ritmo que resultou em uma grande mudança de som que contrastava totalmente com sua identidade artística anteriormente tomada, agora, não mais sendo a delicada Poppy que faz vídeos de teor ilógico, como entrevistar uma planta, mas sim, uma artista de rock com um som feroz e intenso. Essa nova direção artística resultou em alguns de seus trabalhos mais ilustres como I Disagree e EAT.

Por mais que já tivesse se aprofundado no universo do rock, Poppy havia se aventurado em outros ritmos que se distanciavam do electropop convencional abordado em suas primeiras obras. Um deles foi o industrial no EP Choke. No entanto, após isso, ela nunca fez nenhum outro registro completamente nessa linha sonora. É aí que chega o novo projeto da artista, Zig. Nele, ela retorna ao industrial e faz um excelente trabalho ao operar com as influências desse, pois, ela não apenas apresenta certas experimentações intrigantes com o gênero, mas também, um trabalho que se destaca por ser um dos melhores exemplos de como ter êxito em reunir características pop à atmosfera metálica inconvencional do industrial.

O registro explora uma quantidade plural de abordagens estilísticas do gênero. Nas duas primeiras faixas, por exemplo, Poppy mescla muito bem o industrial com EBM e o midtempo-bass. "Church Outfit" destaca-se pelo quão envolvente é o uso dessas influências eletrônicas pela produção, ao passo que, "Knockoff", soa fascinante pelo tom sombrio surpreendente que é criado pela instrumentação e performance vocal. Por outro lado, em "The Attic", as guitarras de rock industrial são mescladas com melodias encantadoras de piano e um drum n' bass sensacional que resulta em algo extremamente hipnotizante.

Embora mostre uma sonoridade diferente da explorada nos dois últimos registros de Poppy, as influências rock desses permanecem aqui, mesmo que de forma menos intensa em Zig. "1s + 0s" é, referencialmente, um apaixonante rock industrial. Além das baterias intensas e as guitarras distorcidas serem fenomenais, essa faixa é um excelente caso para evidenciar como Poppy consegue, com excelência, mesclar um ritmo muitas vezes tão pouco típico com uma abordagem pop, partindo de um refrão bastante cativante e uma estrutura musical tecnicamente comum. Já na música que vem em seguida, "Zig", a instrumentação é muito divertida. Talvez muitos pensem nela como irritante pelo hook com repetição incessante, porém, ao meu ver, o caráter repetitivo do refrão é algo que torna a canção ainda mais cativante.

Mesmo nos poucos momentos em que ela foge da exploração formidável da música industrial, Zig consegue trazer destaques. "Motorbike" apresenta um dance-pop inspirado na música disco e synthpop e, por mais que não surpreenda tanto quanto o resto da obra, é uma ótima canção. Os sintetizadores trazem uma atmosfera noturna excelente, enquanto que as guitarras soam muito divertidas e o gancho é um dos mais acessíveis do projeto. Já "Linger" é uma das melhores canções do registro, pois a experimentação de gênero feita aqui é bastante intrigante ao fazer uma mistura singular de folk com uma abordagem mais suave do dubstep e UK-garage desconstruído.

Após iniciar esta década com um som rock feroz, Poppy inicia uma nova fase em sua carreira com Zig, este que soa tão fenomenal quanto suas outras obras lançadas desde 2020. É um álbum pop que se destaca ao fazer um flerte modular com o industrial, explorando de forma sensacional o ritmo ao se aventurar por diversas de suas vertentes de maneira formidável. Ademais, o material ganha ainda mais ênfase por, dentro do cenário da música pop, ser um dos mais singulares lançados esse ano.

Selo: Sumerian
Formato: LP
Gênero: Pop / Pop Alternativo, Pós-Industrial
Davi Bittencourt

Davi Bittencourt, nascido na capital do Rio de Janeiro em 2006, estudante de direito, contribuo como redator para os sites Aquele Tuim e SoundX. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Música do Leste e Sudeste Asiático, Pop e R&B.

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