Clássicos do Aquele Tuim | Selected Ambient Works Volume II (1994)



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Selected Ambient Works Volume II impôs pares importantes para que outros artistas vissem a música ambiente além das definições que prevaleciam na época — um ponto culminante para as futuras gerações.

Há uma imensa perturbação, ainda hoje, em relação ao significado de música ambiente. Há quem diga que, como sugere na nomenclatura, o ambiente é aquele tipo específico de som que pode ser ouvido como relaxamento, como algo que o acompanha em alguma tarefa doméstica, ou mesmo um tipo específico de música cujo ouvinte não precisa se preocupar muito sobre como se dá a sua formação. Mas também há quem diga que o ambiente é uma fase mais profunda da texturização musical, como se para o conseguir fosse necessário contornar a estrutura convencional da música e apostar, quase exclusivamente, numa construção de atmosfera que só pode ser absorvida com cuidado

As duas definições não se desviam do real significado do gênero. A música ambiente é, ou pode ser, acima de tudo, ambas as coisas — essa é a resposta que Richard D. James nos diria se lançasse o seu disco Selected Ambient Works Volume II hoje. Na época em que foi lançado, o álbum serviu como resposta a essas mesmas questões, já que o próprio projeto Aphex Twin permanecia na fronteira entre o ambiente e outros gêneros que, no início dos anos 90, repercutiram em grande parte da Europa após a modulação de muitos deles nos Estados Unidos, como as variações do techno de Detroit. Mas chamava atenção como o então ambiente se portava frente à música eletrônica, como Richard mesmo havia proposto em Selected Ambient Works 85-92, de 1992.

Selected Ambient Works Volume II, nesse sentido, surgiu como uma oposição às classificações — situação que serve para nos lembrar que, não importa quando, a cultura de colocar tal artista e tal projeto em um gênero sempre será tão boba quanto é ineficaz. O álbum contém algumas afirmações interessantes sobre o debate, em primeiro lugar, sua concepção é mesclada com um certo processamento de ideias que não era apenas incomum, mas também mentecapto no que compreende a perspectiva de seu criador — Richard havia dito em entrevista que produziu grande parte das músicas através de sonhos lúcidos, ou seja, enquanto dormia. É interessante, porque, mesmo que impossível para alguns, esta forma de talvez proporcionar a sua criação é consistentemente uma maneira de torná-la mais alusiva, como se o som desempenhasse efetivamente um papel mágico e sonhador, de modo que muitos acreditam ser partes essenciais da música ambiente.

Apesar de tudo, a provocação do artista estava lá, pronta para ser desafiada ou acolhida como parte daquilo que ele defendia como sua música. Na verdade, a provocação foi talvez a palavra-chave em Selected Ambient Works Volume II. Seu número denso e robusto de faixas, 24 por completo e totalizando mais de duas horas e meia de duração, fez deste registro o exercício mais expansivo do Aphex Twin até agora. E não é de se espantar, pois em sua juventude, Richard fez tantas músicas que, se ele lançasse todas, seriam necessários centenas de álbuns como este.

Momentos como “#1”, que abre o disco e faz de seus sete minutos de duração um anúncio do que seria o restante da obra, com repetições de fragmentos vocais e sons de harpa mesclados com bateria metálica, acrescentam simbolismo às afirmações mais persuasivas de Richard como criador de frequências eletrônicas. Em outras ocasiões, percebe-se o silêncio e a calmaria que em partes definem a música ambiente. “#3” atinge o cerne de tudo: há longas tomadas de sintetizadores tubiformes que se repetem como se criassem ondas de sons que atravessam as paredes, os prédios, os troncos de árvores e até mesmo o oceano, escoando pelo mundo em uma sequência assustadoramente familiar. “#7”, na mesma esteira de identificação, é quase religiosa, com gotas pingando, escorrendo e trilhando ritmicamente as estalactites duma gruta em que a água é milagrosa. Já “#10” expande as desconexões espaciais anteriormente representadas. É uma canção harmônica, que gera ecos enquanto sofre afinação ao longo de sua construção atípica, mas acessível.

Quando mais curto e breve, como em “#12” e seus sinos, o álbum recupera os fragmentos vocais, desta vez mais peculiares — e enlouquecedores também. Por outro lado, destaca-se a fusão entre o que Richard tentava ocupar como sendo unicamente pessoal. Por isso “#19” tem seu ritmo dançante como forma de propagar uma quase assinatura do artista. E, embora Selected Ambient Works Volume II não tenha sido definitivo na classificação geral do que de fato é música ambiente, ele estabeleceu pares importantes para que no futuro outros artistas enxergassem o gênero além do que muitas vezes é imposto. Esse tipo de porta aberta foi essencial para que o propriamente dito eletrônico encontrasse a liberdade de experimentação — um ponto culminante para as seguintes gerações. E se antes esse mesmo gênero era definido, em maior escala, conforme o que fez Brian Eno em álbuns como Ambient 1: Music For Airports, Ambient 4: On Land e Apollo: Atmospheres and Soundtracks, foi com Selected Ambient Works Volume II que isso mudou.

Selo: Warp
Formato: LP
Gêneros: Ambiente / Eletrônica
Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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