Clássicos do Aquele Tuim | Ultravisitor (2004)


★★★★★

Após mudar o curso do drum and bass, Squarepusher mudou o público e a si mesmo em seu disco mais experimental, Ultravisitor.

Lançado no começo da era digital — além do fato de que a figura por trás do projeto estava rodeada de polêmicas —, Ultravisitor era um projeto ousado. É bem sabido que Squarepusher tenta, desde sempre, dilacerar toda convenção e barreira rítmica em seu trabalho — quando não tenta fazer isso com características melódicas, conceituais e comerciais também. Seja o debut, Feed Me Weird Things, elogiado com afinco por mentes como o grande André 3000, ou seu álbum mais famoso, Hard Normal Daddy, no fim dos anos 90, Squarepusher era um dos únicos produtores de eletrônica que desejavam a abertura de novos horizontes através da destruição completa — sendo outro o seu companheiro de gravadora, Aphex Twin.

Assim, o desejo de expansão de ambos se traduziram em épocas parecidas, mas em momentos bem diferentes. Aphex Twin já tinha acabado com toda a noção do que era música ambiente há uma década antes de Ultravisitor ter sido lançado, mas, mesmo que em uma escala notavelmente menor e outros pesares, o efeito deste na grande grade da música eletrônica foi tão importante quanto. Enquanto Aphex Twin criou uma categoria nova — algo explicado muito bem em nosso especial de clássicos que incluiu Selected Ambient Works Vol. II —, Squarepusher introduziu a música experimental e o jazz de uma maneira jamais vista antes, ao menos nunca em tão ampla e profunda maneira.

Não raramente você encontrará sessões de noise, música eletroacústica, música ambiente, glitches e mais, interrompendo os trechos mais descontrolados e selvagens do álbum. Nos grandes épicos de seis a nove minutos, que compõem a maioria das faixas, essas influências experimentais se interconectam dentro de peças que, ao exagerar o detalhismo de suas características rítmicas, ultrapassam os limites do que é bateria, barulho, melodia, ambiência ou textura, fazendo uma metamorfose de cada elemento a outro — é uma reação alquímica longuíssima, indissociável da disposição temporal da faixa e de seus elementos chorosos.

A partir disso, é óbvio o quão desorientador e inacessível parte de Ultravisitor pode ser, porém, a complexidade do disco não só reside nessas seções, como também pelo contraste claro que estas têm com a simplicidade instrumental que se reside nas composições jazzísticas. Portanto, encontrará, também, um nível de foco e sensibilidade surreal em cada free jazz do disco, que conta com o próprio Squarepusher performando na bateria com excelência, emocionalmente conturbado mas tecnicamente firme e, no mínimo, impressionante. São trechos delicados como uma milimétrica fita de seda, que exigem uma total atenção do ouvinte para serem devidamente degustados — ou seja, enquanto nos momentos eletrônicos o foco é necessário para não se perder em meio ao caos absoluto, nos de jazz, ele existe para te fazer notar as belezas da fragilidade do artista.

Então você passa por um abre bocas, arregala olhos, caída de cadeira e outras formas de espanto presentes nos “breaks” de faixas como “Ultravisitor” e “Menelec” — o diabólico amargor da mente enjaulada do produtor —, para então se afogar na água fria através de uma leitura densa, exercícios mentais doentios, testes de audição e outras formas de “meditação” de faixas como “Iambic 9 Poetry” e “An Arched Pathway” — a complexidade inimaginável da mente solitária do produtor. Uma hora ou outra o ciclo se repete e mais experimentações chegam, mais conceitos indecifráveis se aproximam até que, após 80 minutos dessa experiência, o disco se acaba.

Ultravisitor quebrou o mundo. Bem, desde que por “mundo” eu queira dizer um nicho bem específico da música eletrônica, é claro. De um jeito ou de outro, tanto a crítica quanto o público se encontraram extremamente divididos. A intercalação de temas aparentemente tão distantes, mas na realidade limítrofes, confundiu se o álbum era feito para ser escutado de uma vez só ou separado pelas faixas mais gostadas — em 2004, a experimentação com as excitantes novas formas de se consumir música estava em pico com a pirataria.

Contudo, por mais que a segunda opção seja possível, Ultravisitor é uma peça unitária de máximo primor, pois é justamente sobre nós, ouvintes, e nossa relação com o álbum — ou melhor, nossa relação com Squarepusher. São 80 minutos exaustivos de conversas entre o ato de consumir e o produto consumido, algo expressado com clareza pelos clipes vocais de reações da audiência em apresentações ao vivo — audíveis apenas em transições entre complexidades ou momentos mais simplistas. Você atua como um turista, o maior turista da mente de Squarepusher, de sua mente constantemente sombria, desoladora, confusa, matemática, ilógica e, principalmente, contraditória.

Dessa forma, o álbum não é só um diálogo entre o ouvinte, a críptica arte e o artista, ele é feito, também, para criar diálogos internos, de identificação com as trevas nas paisagens de suas faixas, com sua contradição inerente, com sua perigosa humanidade. No fim, creio que talvez eu tenha exagerado um pouco, faz mais sentido dizer que por “mundo” eu queira dizer o meu mundo, mas isso não significa que Ultravisitor não possa quebrar o seu também. Música para destruir, seja a música ou você.

Selo: Warp
Formato: LP
Gêneros: Eletrônica / Drill and Bass, Free Jazz, IDM
Sophi

Sophia, 18 anos, estudante e redatora no Aquele Tuim, em que faço parte das curadorias de Rap e Hip Hop e Experimental/Eletrônica e Funk.

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