Crítica | Everything I Thought It Was


★★

Em seu novo álbum, Everything I Thought It Was, Justin Timberlake não consegue recapturar as características de seus melhores trabalhos.

Nos últimos tempos, Justin viu sua imagem pública queimar com as pessoas descobrindo o trauma que ele causou às artistas femininas, no qual ele saiu ileso de todas essas situações. Com Janet Jackson, o episódio ocorreu em sua apresentação no Super Bowl, onde Timberlake expôs, acidentalmente, um dos seios da cantora e fez com que ela sofresse diversos ataques na internet — muitos deles de teor misógino —, enquanto o dono do hit “Sexyback” pouco se importava, pois não queria ser lembrado como parte daquilo que, supostamente, ajudou a causar. Quanto a Britney Spears, com quem teve um relacionamento amoroso, a questão fica ainda mais delicada, conforme foi exposto pela artista em seu livro de memórias The Woman In Me.

Um dos piores acontecimentos envolvendo eles foi quando, após um término que machucou bastante a intérprete de “Toxic”, Justin lançou “Cry Me A River”, uma faixa que fala sobre uma mulher que o traiu, e, como havia acabado de terminar com Spears, o público associou a narrativa com ela, a fazendo receber enxurradas de ódio. Para piorar, o dono da música não fez nada, novamente, em relação a isso e deixou-a sofrendo ataques sozinha. Com isso, evidenciou-se que em diversos pontos de sua carreira ele passou por cima de figuras femininas da indústria, mesmo ele tendo culpa em várias das ocasiões, deixando somente elas lidarem com as consequências.

Com todas essas situações expostas ao público, Justin Timberlake decide fazer seu grande retorno, no qual se propõe a comentar um pouco sobre as polêmicas recentes, ao mesmo tempo em que busca resgatar as características que tornaram seus trabalhos excelentes — e ambas as propostas falham. Liricamente, há certas músicas que podem estar ligadas ao seu relacionamento com Britney e outras às suas demais polêmicas.

Em “Conditions”, por exemplo, ele parece falar sobre os erros que ele tomou durante sua vida: “If I lose myself and I go missin' / Make a couple hundred bad decisions / Do some shit I know won't be forgiven / Could you love me under those conditions?”. Já “Alone” é uma balada em que ele discorre sobre um término e apresenta letras que, talvez, possam ser interpretadas como uma resposta à Spears: “Heartbreak, it's the word right now / We took it all for granted / And "sorry" don't really work right now / Guess I'm all out of chances”. O problema, porém, é que, embora as composições não sejam realmente ruins, elas exploram os temas de forma extremamente rasa e por isso o cantor não é convincente ao demonstrar seus sentimentos em relação a essas situações.

“Drown”, por sua vez, é repulsiva. Na canção, o artista fala sobre um relacionamento no qual sua parceira o fez extremamente mal e, quando ele estava no fundo do poço por causa dela, ela não o ajudou a se sentir melhor. Diante de todas as atitudes que teve com Britney enquanto namoravam e depois que o rompimento veio à tona, é de extremo mau gosto lançar uma música em que ele se retrata como vítima de um relacionamento tóxico. A sensação que dá quando o ouvinte o ouve sabendo de todas as circunstâncias que cercam Justin Timberlake é que ele quer tentar fazer com que o público simpatize com ele. Felizmente, as pessoas parecem já ter tomado partido nesta história e esta suposta tentativa de vitimizá-lo não o fará sair bem dessa situação.

Sonoramente o disco tem seus destaques. Há algumas faixas que, na proposta de compilar as melhores características de seus trabalhos anteriores, conseguem ter grande êxito. É por isso que “No Angels” é o melhor momento de Everything I Thought It Was. Música pop estruturada com maestria, energia arrebatadora do artista, melodias cativantes e produção funky sedutora são elementos que marcaram as canções de maior excelência da carreira de Timberlake e todas elas são apresentadas fenomenalmente nessa canção.

Vou dar ênfase para uma dessas características que marca os melhores momentos da obra: a sonoridade com grande influência do funk e do disco. Quase todas as vezes em que Justin Timberlake se propõe a fazer essa abordagem sonora aqui resulta nas faixas mais divertidas do projeto. “Play” e “Infinity Sex”, com seus grooves funky tentadores alinhados à performance formidável do cantor, e “My Favorite Drug”, com o nu-disco eletrizante, se destacam junto à “No Angels” no registro.

Penso que o único momento do álbum em que o uso desse som não dá bons frutos é em “Fuckin’ Up The Disco”. Além do gancho e o baixo sintetizado serem ruins, ao longo da música Justin Timberlake explora modulações vocais não convencionais mas que acabam sendo indigestas. Apesar de ter seus destaques, na maior parte do tempo Everything I Thought It Was é marcado por alguns dos pontos mais baixos da carreira do cantor. Em várias canções ele se aventura no trap, talvez em uma tentativa de se adaptar às sonoridades mais atuais, porém em quase todas as vezes o resultado é de má qualidade. Algumas faixas erram pela produção operar com o gênero de forma insuportavelmente genérica — o caso de “Selfish” —, em outras o cantor não consegue se ajustar bem a esse som — em “Memphis”, por exemplo, com sua performance apática.

Uma das poucas músicas em que isso apresenta bons resultados é “Technicolor”, um trap-pop adorável com uma estrutura progressiva em que Justin Timberlake parece tentar relembrar dos tempos de 20/20 experience. Apesar de elaborar uma canção que, além de intrigante, é muito envolvente o uso do trap noturno junto às melodias excelentes de Justin, o produto em si não consegue chegar ao nível do pop progressivo que o artista já proporcionou no passado em sua discografia. Pode-se dizer que o novo disco do artista tenta cativar o ouvinte ao tentar resgatar características marcantes de suas obras artísticas mais aclamadas ao mesmo tempo em que busca discutir os últimos acontecimentos de sua carreira, porém, as faixas dificilmente conseguem atingir o mesmo patamar de 20/20 experience e FutureSex/Lovesounds.

Selo: RCA
Formato: LP
Gênero: Pop  / R&B Contemporâneo
Davi Bittencourt

Davi Bittencourt, nascido na capital do Rio de Janeiro em 2006, estudante de direito, contribuo como redator para os sites Aquele Tuim e SoundX. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Música do Leste e Sudeste Asiático, Pop e R&B.

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