Crítica | Darma




Em Darma, Pedro Lotto faz o máximo que pode para evitar tomar decisões.

Por volta de 2015 e 2016, o trap estava chegando ao Brasil, mas primariamente naquele jeito Eminem de ser: “flows” rápidos, entupimento de rimas pobres e insuportavelmente branco. Um dos grandes nomes dessa leva era o Costa Gold, infames por terem o senso estético e lírico de uma batata inglesa e o talento de um musgo de piscina. Apoiando-os, estava o produtor Pedro Lotto, que almejava ter um estilo tão “cru” que optava por ignorar a seção “experimente com o que sabe!” do tutorial de como fazer um type beat.

Porém, fazem oito anos desde então, sendo que de lá para cá o trap mudou muito, não só com a adaptação de estilos gringos como com a criação de um específico nosso: o trap funk. É uma decisão mercantil excelente, digo, a de unir a febre que tem hits como “Kenny G” e “Plaqtudum” com a que tem “Bum Bum Tam Tam” e “Olha a Explosão” — mas é uma pena que a união de elementos geniais nem sempre dê um conjunto genial.

É um gênero estagnado, pouco moldável, pouco volátil, um tanto repetitivo; ou seja, é uma perda de tempo, principalmente por ter tanto potencial escondido. Ninguém precisa de mais uma faixa com samples que ululam obviedade, muito menos um cinza estético que não se afirma no trap nem no funk, não se afirma nem no meio nem como algo totalmente novo… que não chega nem a ser um vazio. É apenas algo, mas algo muito, muito fraco, quase imperceptível.

Mas não deveria eu estar falando de Darma e não de trap funk? Para falar a verdade, eu já falei de Darma, pois, por mais deprimente que seja, a descrição do trap funk é a mesma do álbum — ignorando o fato que este é pior ainda, claro. Assim, inesperadamente, Pedro Lotto, em oito anos, não conseguiu nem a meritíssima façanha de piorar, ele apenas emperrou.

Como uma pistola antiga, os tiros, tentativas de emplacar algum hit, são impedidos por uma enxurrada de cliques e claques que tentam arrodear sua idade flagrante. Todas as faixas são as mesmas ideias, com a mesma repetição temática sem nenhuma consciência de sua repetitividade, são uma negação do ato de exercitar, de pôr em prática. É um piloto automático cultural, uma bateção de pedra em pedra até a infinitude sem gerar uma sequer faísca. Isso faz com que os diálogos da obra fiquem em um padrão de fala incompreensível, que operem em signos vazios, deslocamento zero. É o suprassumo da cartilha seguida à risca, o proposital esgotamento de ideias e decisões para traduzir o mais vendável produto.

Entenda, eu já disse que Darma não é um vazio e sim algo fraco, mas não cometa o erro de comparar com uma chama fraca. Uma chama é incandescente, brilha, em meio a escuridão seus amarelo, vermelho e laranja se intercalam para fascinar a nossa retina, ela comove, ela instiga — na mais pessimista das conceituações ela ao menos significa algo —, ela é vida. Darma é morte. Darma não brilha, não é ausência de brilho, é uma partícula gélida, é irradiação desprezível.

Selo: 2050, Virgin Music
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Trap, Trap Funk
Sophi

Sophia, 18 anos, estudante e redatora no Aquele Tuim, em que faço parte das curadorias de Rap e Hip Hop e Experimental/Eletrônica e Funk.

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