Crítica | Carnival [放生会]


★★★★

Entre o rock e o jazz, Sheena Ringo [椎名林檎] consegue, enfim, lançar sua própria história épica.

Em 2019, quando lançou seu sexto álbum de estúdio, Sandokushi ou Trivisa Itihasa [A História dos Três Venenos], Sheena Ringo [椎名林檎] parecia tentar lançar muito mais do que um álbum, talvez uma epopeia própria. Embora não tenha tido êxito na época, a Sra. Sheena parece não ter desistido da ideia, e assim nasce Carnival [放生会].

Antes de prosseguir, sugiro nos atentarmos a algumas coisas. Primeiro, Sheena Ringo é mais conhecida por seus três primeiros álbuns (無罪モラトリアム [Muzai Moratorium], 勝訴ストリップ [Shōso Strip] e 加爾基 精液 栗ノ花 [Kalk Samen Kuri no Hana]), tendo como característica trabalhos mais uniformes e consistentes. A ideia de um rock-jazz está presente desde o seu debut, entretanto acredito que à época o rock-jazz funcionava mais como um espectro que buscava harmonia, com a predominância do rock.

Outro ponto, é como os trabalhos mais recentes da cantora têm sido contrários a essa prerrogativa, gerando a frustração dos ouvintes ocasionais e até de alguns fãs. Ora, já li que um dos seus álbuns mais recentes era apenas uma coletânea de singles já lançados. Então como a Sra. Sheena saiu de álbuns consistentes para playlist de singles?

A questão, é que embora a primeira parte da pergunta seja verdade, a segunda parte é mentirosa! Como assim?! Veja, um álbum é bom porque ele desperta algo no ouvinte — não necessariamente agradável ou harmônico. Longe da Sra. Sheena produzir algo tão experimental ou inaudível, a ideia aqui é a expectativa frustrada de fãs que esperam que a discografia de um artista seja como um livro de receitas; é só seguir e pronto! Adianto que Sheena Ringo é frustradora de expectativas, assim como Carnival.

Como adiantei na introdução, Carnival é uma sequência, ou talvez uma forma melhorada, do sexto álbum, Sandokushi. No mesmo exercício, o nome japonês de Carnival é Hojoya, um festival budista que liberta animais de seus cativeiros. Os três venenos do coração, Sandokushi, também é um conceito budista. Então, qual a intenção desses trabalhos com esse papo de budismo? Criar uma epopeia budista nas ruas de Tóquio ao som de jazz e rock! Sheena Ringo possui todas as características para a história: tem a heroína, ambientação, aliados, vilões, reflexões morais. Só que em Sandokushi, ela não convence e o álbum soava bagunçado.

Em Hojoya é diferente. Aqui, temos uma epopeia que se passa em Tóquio durante o festival budista. Sheena Ringo é nossa heroína, ou melhor, anti-heroína, e claro que nenhuma história de heroi é feita sozinha, afinal a jornada exige mentores, amigos, romances e rivais. Por isso, o disco está recheado com grandes divas do j-pop e j-rock como AI, Nocchi (Perfume), Hiraku Utada, ATARASHII GAKKO! e outras.

A evolução do trabalho não é nada consistente. As primeiras faixas são espaçadas, algumas têm espaço para instrumental breaks e se ambientam, de fato, em um festival, como “as a human”. Depois, o LP toma um rumo mais frenético, em que as faixas não possuem transição: são apenas espremidas uma atrás da outra. Antes do fim, a protagonista parece ser derrotada em “FRDP”, recua em “bye purity” e retorna em “a grand triumphant return”, que indica seu triunfo na luta e, por conseguinte, aproveita o festival em “cheers beer”.

Faço ainda algumas outras considerações. Embora o álbum utilize singles desde 2021, ele está longe de soar como uma coletânea de músicas soltas. Hojoya, assim como os lançamentos mais recentes da cantora, parece dar mais prioridade ao jazz na relação rock-jazz. Me parece que a Sra. Sheena pretende imprimir nas suas músicas uma elegância “a lá anos 20” que o rock não alcança, portanto, essa sobreposição me parece apropriada.

Além disso, destaco como na inconsistência do seu trabalho, Sheena Ringo encontra alguma ordem com a história que conta no pano de fundo. Em Sandokushi a história se perde entre o início e o fim, tornando o álbum ainda mais incompreensível, em um momento ela está lutando contra os venenos e no outro está levando a punição cármica. Já em Hojoya, a artista consegue nos guiar através de suas faixas bagunçadas, personagens saltantes, e claro, uma voz muito peculiar.

No final, Carnival, de Sheena Ringo, é uma experiência ímpar que não tem medo de mudanças, é também para quem curte (j)divas e quem não se frustra com pouco. A Sra. Sheena nos presenteou com o seu melhor álbum em anos, e, finalmente, conseguiu contar com êxito sua epopeia.

Selo: Universal Music LLC
Formato: LP
Gênero: Música do Leste e Sudeste Asiático / J-Pop, J-Rock
joão lucas

Potiguar, mulçumano e graduando em Ciências Sociais. Escrevo sobre o que me cativa e o que me apetece. Redator e curador de Folk/Country, Música do Leste e Sudeste Asiático e Pop/R&B no Aquele Tuim.

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