Crítica | João Rock 2024


★★★

A péssima organização do festival, infelizmente, tirou o brilho das excelentes atrações que iam de Marina Sena a Djavan.

O João Rock é um dos maiores festivais de música do Brasil dedicado principalmente ao rock nacional, mas que também abre espaço para outros gêneros como o hip hop, rap, reggae e MPB. Realizado anualmente em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, o evento se destaca por reunir grandes nomes da música brasileira, com múltiplos palcos e uma grande estrutura.

No último sábado, 8 de junho, ocorreu a 21ª edição do festival. Com quatro palcos – Palco João Rock, Palco Brasil, Palco Aquarela e Fortalecendo a Cena – o evento ofereceu 14 horas ininterruptas de música. Entre as atrações, destacaram-se artistas como Marina Sena, presente pelo segundo ano consecutivo, Duda Beat, Novos Baianos, Os Paralamas do Sucesso, Ney Matogrosso, Marina Lima, Djavan, Pitty e Emicida, entre outros grandes nomes da música nacional.

O festival ofereceu um line-up excelente, e foi difícil acompanhar todos os shows até o final, pois gostaria de ter visto pelo menos a maioria dos artistas. Mesmo assim, por conta da organização do evento, acabei perdendo um show inteiro pelo qual estava bem ansiosa. Cheguei ao local um pouco antes do início do festival, porém, tive que buscar a pulseira que dá direito à entrada no Ribeirão Shopping, que fica a cerca de 20 minutos de carro do local do evento. Com isso, já sabia que iria perder o início das atrações, o que não aconteceria se disponibilizassem a retirada da pulseira no próprio recinto.

Quando finalmente cheguei, o show da Marina Sena tinha acabado de começar, e eu gostaria muito de ter visto pelo menos metade da apresentação. Acreditei firmemente que daria tempo, pois não imaginava que levaria tanto tempo para entrar. As filas eram gigantescas e super desorganizadas, o que desanimou o público e gerou até brigas. Para entrar o quanto antes, era necessário furar a fila, pois os organizadores simplesmente não sabiam como evitar a confusão que ali se instaurou. Foi terrível, me fez até sentir saudades do caos do Lollapalooza.

Ao menos, não tive problemas para me alimentar. As filas eram tranquilas e havia bastante caixas espalhadas pelo espaço. Outro ponto positivo foi a parceria com a Vivo, que disponibilizou alguns pontos para recarregar os celulares, sem necessidade de levar um cabo USB de casa. A recarga era lenta, mas foi bastante útil. Bastava apenas deixar o celular trancado com uma senha e ir curtir o festival enquanto ele carregava.


Também gostei que o banheiro feminino não era químico, pois, quando é banheiro químico, eu nem cogito ir. Tento consumir menos líquidos porque tenho horror a esse tipo de banheiro. No começo do festival, eles estavam limpos e também havia distribuição do pipizito, que facilita fazer xixi em pé. Porém, ao anoitecer, os banheiros já estavam imundos, e o banheiro masculino ao lado, que era químico, estava com um cheiro insuportável.

Uma coisa que me deixou chateada foi o ponto de hidratação. Primeiro, era necessário comprar um copo para poder encher de água. Alguns festivais, como o Primavera Sound, disponibilizam o copo oficial do evento para todos logo na entrada, sem necessidade de consumir nada. Isso foi frustrante, mas ainda mais frustrante foi descobrir que havia apenas um ponto de hidratação. Algumas torneiras não funcionavam e a água caía lentamente.

Outra coisa que notei foi que o público parecia perdido, mesmo com o mapa. Eu também tive dificuldade em encontrar as coisas com facilidade. Pensei que o problema era comigo, mas muitas vezes fui parada por pessoas perguntando onde ficava determinado lugar. Também precisei perguntar a um funcionário certa vez, mas ele não soube responder.

Além disso, o lugar tinha uma energia muito caótica, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo – ambiente propício para deixar qualquer um confuso. Em um momento, parei em frente a um palco pequeno, sem saber o que estava acontecendo, e ao lado havia um stand com um DJ. Enquanto isso, um show acontecia em um dos palcos principais logo em frente. Uma verdadeira baderna. E falando em palco, houve um problema no som de um dos principais do evento. O som estava bem baixo durante a apresentação do Djavan, frustrando grande parte do público. Além disso, esse palco ficava em uma área plana, o que dificultava a visão do show. Esse palco, inclusive, sofreu alterações de horários devido ao cancelamento da apresentação de Lulu Santos, causado por problemas de saúde do cantor. Todos os shows desse palco foram remanejados para mais tarde.

Palco Aquarela

Maria Gadu

Eu não sabia o que esperar desse show, pois nunca tinha visto nenhuma apresentação da cantora. Fui surpreendida positivamente. Gadu tem uma voz poderosa e sabe usá-la perfeitamente. E por falar em perfeito, acredito que a artista seja perfeccionista no palco, pois não houve nenhum erro; tudo saía perfeitamente bem, como se fosse tudo muito bem ensaiado. Não fiquei até o final do show, mas veria ele completo em outra oportunidade.


Marina Lima

Era o show pelo qual eu estava mais ansiosa, e ele superou minhas expectativas. Embora o palco não estivesse lotado, foi um dos melhores shows do dia. Teve troca de looks, dança, momento acústico e homenagens a Marielle Franco, além dos cantores Renato Russo e Cazuza, quando Marina apresentou as músicas "Ideologia" e "Ainda é Cedo". A cantora esbanjou carisma e demonstrou carinho por Ribeirão Preto, cidade onde ela já se apresentou diversas vezes. Foi muito divertido e bonito. Pretendo comparecer a mais shows da Marina.

Palco Brasil


Novos Baianos

O show dos Novos Baianos foi uma celebração da música brasileira. O álbum Acabou Chorare, considerado um dos maiores álbuns da história da música nacional, foi o destaque da noite. Apesar de algumas falhas técnicas durante a apresentação, a banda manteve a energia lá no alto e não deixou a peteca cair. Baby do Brasil, aproveitou o momento para compartilhar uma conquista significativa: Acabou Chorare foi incluído na lista dos 300 melhores discos da história da música mundial pela revista Paste Magazine — a notícia foi recebida com euforia pelo público, que comemorou junto a banda. O show reforçou a importância não só do álbum na cultura brasileira, mas também demonstrou a vitalidade dos Novos Baianos, que continuam a encantar gerações com a sua música; foi uma noite marcada pela celebração da história e da música de um dos maiores nomes da música popular brasileira.

Ney Matogrosso

Ney foi uma das maiores estrelas daquela noite. Embora eu tenha perdido boa parte do show porque precisava de água, todos os momentos que vi foram hipnotizantes, não apenas pelo seu figurino chamativo, mas também pela sua voz e presença de palco. Ney também abusou de covers de outros artistas, enriquecendo seu repertório com grandes clássicos da música brasileira.

Djavan

Djavan foi vaiado na internet por proibir a transmissão do seu show, mas foi muito bem aplaudido pelo público presente no festival. Não tem jeito, Djavan é muito amado pelo público brasileiro. Foi o momento em que mais vi gente reunida para assistir uma apresentação naquele dia e todos cantavam a plenos pulmões os grandes sucessos do cantor. Por outro lado, havia uma galera frustrada pelo palco num lugar plano e também pelo som estar bem baixo.

Palco João Rock

Os Paralamas do Sucesso

Foi uma chuva de hits do início ao fim. O público sabia cantar todas as músicas; foi difícil ficar parado. Além disso, o show contou com a participação especial de Samuel Rosa na canção “Loirinha Bombril”, em que o ex-vocalista do Skank declarou que a banda foi uma de suas influências.

Pitty e Emicida

E para encerrar a noite com chave de ouro, tivemos Pitty e Emicida em um show inédito, intitulado como Travessia, em que o objetivo era misturar os sucessos de ambos os artistas, fazendo um mix super interessante de rap e rock. Deu mais que certo. Eu estava tão cansada na hora, mas não conseguia tirar os olhos do palco, pois ficava curiosa para ver como as músicas de ambos iriam se misturar ali. O resultado foi harmonioso, e essa é uma parceria de sucesso. Por mais que ambos não tenham uma carreira tão longa quanto as lendas da música como Djavan, Ney Matogrosso e Novos Baianos, eles conquistaram rapidamente o coração dos brasileiros pela qualidade de suas canções, personalidade e presença de palco. Estou ansiosa para rever essa apresentação o quanto antes.


Por fim, por mais excelente que seja a ideia do festival, a desorganização gerou muito estresse. Acertaram em cheio na seleção dos artistas, mas infelizmente um festival vai além do line-up. Eu só não voltaria novamente por causa disso e também porque não moro em Ribeirão Preto; precisei fazer uma longa viagem até o local e acabei enfrentando essas questões desagradáveis. Talvez seja mais compensador explorar outros festivais de música brasileira menores, onde há uma energia mais tranquila e não é necessário se deslocar para vários palcos.
Vit

Sou a Vit, apaixonada pelo universo musical desde que me entendo por gente, especialmente por vocais femininos. Editora e repórter no Aquele Tuim, onde faço parte das curadorias de Pop, MPB, Pós-MPB e Música Brasileira.

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