Crítica | O Fim!


★★★½

Novo disco de DJ K, O Fim!, tem pares importantes de mudança e prudência — é um diálogo maior com os generalismos brasileiros.

O novo álbum de DJ K, O Fim!, sucede PANICO NO SUBMUNDO, lançado no ano passado e devidamente posicionado como o seu maior feito até então — sendo uma sequência, não é uma tarefa fácil, convenhamos. No funk, dada a ausência da cultura de lançamento de LP como em outros gêneros, qualquer subsequência, mudança ou coisa do tipo causará, ou haverá de causar, certa estranheza.

O Fim!, apesar de manter muitas das características tortuosamente únicas do beat bruxaria, soa estranho e diferente. Na verdade, há uma redução de tudo o que DJ K havia feito no álbum anterior, e isso por si já sinaliza suas intenções em, por exemplo, optar por uma abordagem mais acessível, essencialmente para o público brasileiro.

É até justificável em algum momento que você se depare com “Dando Sarrada”, de Marina Sena — e ela mesma aqui creditada —, já que seu sucesso, principalmente entre os mais jovens, pode ser a porta de entrada de muitos para o submundo. DJ K se tornou um nome viral depois que a Pitchfork escreveu positivamente sobre PANICO NO SUBMUNDO, mas até que ponto isso o catapultou, no Brasil?

Essa questão pode ser respondida pelos diversos avanços estéticos pop dentro de O Fim!, mesmo que continue sendo um turbilhão interminável de amostras, ruídos e letras que não têm obrigação de serem bem “amarradas”. Nas sirenes e nas risadas de “Set Anti Sistema”, essa mesma ideia de “composição” lírica desaparece. O funk não tem isso. MCs e DJs não se importam com um conceito maior do que o que podem fazer com um áudio encontrado no YouTube, um descarte no SoundCloud ou qualquer coisa que possa acabar sendo um funk de estourar os tímpanos. E nem esta ideia de acenar às massas (mais como expansão de grupo do que contato, já que o funk é a própria massa), tão fincada neste disco, faz com que DJ K recorra a uma “maior atenção ao lirismo”. Foda-se isso.

As mais de uma hora de duração, jogam bem com qualquer sinal de inovação. DJ K e o funk que o acompanha já são inovadores por natureza, e essa também não deveria ser a conversa. Mas o que O Fim! tem, e o que faz toda diferença, é a própria execução sedimentada pela concepção de entregar um trabalho completo, bem feito e que se destaque como um conjunto íntegro. Isso é lindo e continua sendo a maior prudência de DJ K e seu beat bruxaria — impossível de conter ou aprisionar.

Selo: BRUXARIA SOUND
Formato: LP
Gênero: Funk / Beat Bruxaria, Experimental

Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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