Crítica | Where the Butterflies Go in the Rain


★★★★☆
4/5

O retorno de Saturno, que na astrologia marca um período de contemplação e plenitude na vida de uma pessoa, tomou conta da cultura pop neste ano — grandes nomes como Ariana Grande, Kacey Musgraves e SZA fizeram menção ao acontecimento em suas canções. O novo álbum de Raveena, Where the Butterflies Go in the Rain, também é pautado por esse episódio, e talvez seja a tradução mais fiel dele para a música. É um registro orgânico, com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, apaixonado, mas de uma maturidade que floresce repentinamente e que impressiona.

Raveena cita Fleetwood Mac, Brandy e Marvin Gaye como as principais fontes de inspiração para o disco, e não é difícil identificar essas influências nas faixas. Assim como o restante da discografia da cantora, Where the Butterflies Go in the Rain é traçado pelo neo-soul, mas é interessante notar o quão expansiva é sua paleta sonora se comparada aos moldes pelos quais Lucid (2019) foi feito, por exemplo. Aqui, os grooves irresistíveis do R&B contemporâneo recebem, também, pinceladas do folk, do rock e da música indiana, adicionando personalidade a um registro que, caso contrário, poderia soar comum dentro desse universo.

Na realidade, o disco é deslumbrante. A abertura com “Pluto” é excepcional, uma faixa que carrega o espírito leve e descontraído do clássico “Put Your Records On”, de Corinne Bailey Rae, acompanhada de uma letra que encara a perda como o nascimento de uma conexão que perfura o tempo e o espaço. Outro destaque é “Rise”, uma peça que remonta o soul clássico de Marvin Gaye por meio de uma instrumentação rica e variada — uma sofisticação que retorna de forma mais sutil no dedilhar de “Kid”, uma balada exuberante. A maior surpresa, no entanto, é a colaboração com JPEGMAFIA em “Junebug”, que alterna entre a levada esparsa do neo-soul e o pulso marcado do funk americano de forma dinâmica.

Where the Butterflies Go in the Rain segue uma mesma linha temática e estética do início ao fim, mas isso não torna a escuta cansativa. O fluxo entre as faixas é extremamente eficiente e o vocal delicado de Raveena, ainda que com seus limites, trabalha em harmonia com a produção de modo a amarrar quaisquer possíveis pontas soltas. De fato, é um trabalho imersivo e muito elegante.

Selo: EMPIRE, Moonstone
Formato: LP
Gênero: R&B / Neo-Soul, Smooth Soul
Marcelo Henrique

Marcelo Henrique, 21 anos, estudante e redator no site SoundX e no Aquele Tuim, em que faço parte das curadorias de Pop, R&B e Soul.

Postagem Anterior Próxima Postagem