
★★★★☆
4/5
Como você classificaria o brega funk? É um gênero, uma vertente, um estilo distinto de suas raízes funk? É mais pop ou mais funk? Pessoalmente, não consigo pensar em uma resposta definitiva, embora pareça óbvio. Esse desafio constante de compreensão se justifica por figuras como Anderson Neiff. Ele começou online, dançando e se arriscando com produções mais pobres até que, aos poucos, foi acolhido por um público fiel que continua a espalhar seus sucessos quase infinitos. Seu álbum de estreia, I•E•A•A•N, explora esses desafios e impõe uma representação definitiva da linguagem do brega funk na atualidade.
Seus temas são opostos aos comumente vistos no funk do sudeste, eles são cheios de posicionamentos regionais de diálogos e narrativas que misturam seu lado cavalheiro e canalha – ele se dirige às mulheres diretamente (“Homem não serve pra nada, é tudo da mesma laia”, canta em “Chifre Nesse Otário”), instigando-as a se vingarem dos homens, às vezes ele se desculpa por ter traído enquanto exclama que é um safado desde o nascimento. “Nem melhor, nem pior. O diferenciado”, justifica ele em sua assinatura. Suas produções assumem ideias literais, com uma facilidade de percepção e elementos usados que beiram o cartunesco: constantes chicotadas, onomatopeias e versos cantados como gritos. Não há uma preocupação profunda com rimas ou construção de ritmo calculado, relativo ao que se espera dos usos sintéticos de sons eletrônicos em estruturas já tradicionais de produção. É como se ele cuspisse na teoria musical de forma também diferente do que o funk no restante do país faz, brincando com melodias que se contraem o tempo todo como se não houvesse um lugar em específico para chegarem.
O mais interessante nisso é que não há rigidez no som: a música de Neiff precisa ser dinâmica, trabalhada como parte de uma performance de dança, e ele incorpora a dança a ela. Há um cuidado com esses elementos que não vemos no pop brasileiro contemporâneo como ele faz. Até porque o que Neiff busca é justamente expandir e universalizar suas criações a ponto de se tornarem irresistíveis... e não há dúvida de seu êxito. Ele tem consciência desse poder, e o título do álbum, I•E•A•A•N (Infelizmente Eu Amo Anderson Neiff), prova que sua busca por peças cada vez mais contagiantes é mais do que bem-sucedida. Há alguns truques, como em “Prometeu Tudo, Entregou Nada”, que combina o melhor do brega: memes e electro pop, que aqui se dá por uma espécie de amostragem do hit marcante dos anos 2000 de Benny Benassi, “Satisfaction”.
Em outros momentos, o artista cria uma trama completa. Em “Tô Nem Aí”, a música apresenta diferentes perspectivas sobre um relacionamento amoroso, uma relação de iguais. Começa com o empoderamento feminino: “Te trata que nem um bicho / Se toca você não é lixo, cê sabe que não compensa, linda passando por isso”, ele canta para a figura feminina. Em seguida, Neiff se dirige ao culpado: “Tu foi vacilar logo com ela / Agora ela vai viver, uma decepcionada faz história pode crer”. Então, é a vez dela se manifestar, e aí vem Mc Danny: “Revoltada dei o troco / Deixei o otário em casa, tô nem aí pra nada”. E a faixa continua com um confronto que coloca todos os lados desse romance no centro da discussão.
É chocante, porque no meio de tudo isso há batidas, sons de bebidas tilintando, fragmentos da série mexicana Chaves... É uma fusão completa de elementos que não funcionariam em nenhum outro lugar que não fosse aqui. O mesmo nível de criatividade transborda em “Apagou Ficou do Mau”, uma música que se baseia no uso já comum de “FE!N” de Travis Scott e Playboy Carti no funk. Mas vai em uma direção diferente, com as chicotadas de Neiff se tornando parte inseparável de seus ataques narrativos, com berros uivantes, juntamente com sons de luta e humor exagerado e caricato. É uma das coisas mais absurdas que você ouvirá em 2025.
O engraçado é que ele usa uma maneira de pensar sobre a música que astros pop como Michael Jackson usaram, sem exageros. Tudo isso faz parte de como ele, um dançarino, consegue usar som e narrativas para expor temas que fazem parte de seu vocabulário cultural. Na verdade, Neiff nem sabe disso, e não estou subestimando sua habilidade e inteligência, mas é exatamente isso que torna seu trabalho genuíno. Ele cria algo único que, musicalmente falando, levou anos para ser aperfeiçoado. E o álbum é bom porque, depois de muito tempo tentando, naturalmente, ele finalmente entendeu o que fazer com toda sua influência e poder no brega funk.
Selo: Number One Produtora
Formato: LP
Gênero: Funk / Brega Funk