Crítica | Improviso


★★★

Aos 76 anos de idade e 50 anos de carreira, Djavan continua mais vivo do que nunca. Sua música, já reconhecida mundialmente por nomes como Stevie Wonder e Quincy Jones, mistura letras que navegam entre a poesia, a rima e o amor. A maneira de “djavanear” – seu jeito malemolente, charmoso e encantador – dá o toque especial para quem escuta a vasta discografia do artista; e sua mensagem, naturalmente romântica, é potencializada ao extremo em Improviso, lançado nesta terça-feira (11). O disco é a máxima da maneira única (porém fluida) do cantor em abordar diversas perspectivas das relações amorosas e uma celebração das cinco décadas de sua importância na música brasileira.

O ato de se apaixonar, de todas as formas possíveis, nunca esteve tão presente nas passagens líricas de Djavan como atualmente. Quando se escutam as canções do compositor, há emoções mistas ao falar de amor, como ele faz em seu novo álbum – imerso em incertezas que se parecem com uma sombra que paira sobre o ar dos mares azulados e cristalinos de Maceió, por onde o alagoano navega. Na faixa-título, “Improviso”, o romance não é formado por orquestras sinfônicas alinhadas a um maestro, mas por uma complexidade de sentimentos que fazem da improvisação – nada coordenada antecipadamente – o caminho correto para amar (“Pode ter parte com a dor / Quando faço um improviso / Vejo as notas irem de cor”).

A sina de Djavan é a atemporalidade, e isso se torna concreto ao analisarmos sua atual relação com a geração Z, que tanto valoriza as músicas do cantor, transformando-o em diversas figuras, entre elas, o pai dos “negos doces”; porém, essencialmente, um viajante do tempo que transita entre notas musicais que nunca saem de moda. “Pra Sempre” é a comprovação desta tese. A canção, escrita originalmente para um álbum de Michael Jackson há 40 anos, possui instrumentações semelhantes tanto à faixa-título quanto ao conjunto de Luz (1982), com um mix do pop “djavaneado” com amor-próprio e autoconhecimento (“É gente que vem / Com a responsabilidade / De sonhar um mundo divertido / Assim tão mais bonito!”) e do rei do pop. Suas homenagens não param nos states: há também a presença, de corpo e alma, de sua maior intérprete, Gal Costa. Ao reproduzir “O Vento”, o ouvinte refugia a mente em memórias que não foram vividas por nós, mas imaginadas – em meio ao canto sério e airoso do alagoano, em contraste com o vozeirão de Gal na canção original –, as vivências da eterna dupla. Lindo.

Improviso reafirma a posição de Djavan entre os nossos maiores mestres, que seguem na ativa. A cada três anos, o cantor lança um novo projeto (sendo este o vigésimo sexto de toda a sua carreira) que nunca soa mais do mesmo, cansativo ou ultrapassado. Sua arte continua revigorada, assim como seu legado junto à juventude nas redes sociais, principalmente pela comunidade negra no Brasil, ou através de seus netos, que seguirão os mesmos caminhos do avô e lançarão o primeiro trabalho como grupo nesta sexta-feira (14). Mesmo na idade áurea da vida, o Senhor D não cansa de surpreender quem ainda tem muito a ralar, e ensina a cada um o verdadeiro significado do verbo “djavanear”: excelência, autenticidade e originalidade. Seu amor pelo que faz é como um “Jáis”.

Selo: Luanda Records / Sony Music
Formato: LP
Gênero: MPB
Lu Melo

Estudante de Jornalismo, 20 anos. Já fez parte do g1 Alagoas e Revista Alagoana. Atualmente escreve para o Aquele Tuim na curadoria de música brasileira.

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