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Não que o álbum carece totalmente de méritos, visto que as comparações com a fase And The Diamonds da Marina são até bem-vindas quando a artista decide usar o synthpop e o electropop como uma liga de verdade, criando momentos que culminam em faixas como "the beginning of the end" e "w-w-w-w-w". Nessas exceções, ela abraça a superficialidade plástica de peito aberto e faz a fórmula funcionar, embora essas mesmas músicas acabem sofrendo um apagamento quando espremidas no meio das outras faixas do disco, sobrevivendo de forma muito mais digna e interessante se consumidas de maneira isolada.
O grande problema é que o resto do projeto exige do ouvinte um nível de paciência quase sobre-humano, soando menos como um álbum coeso e mais como um amontoado enfadonho de referências mal digeridas que misturam os piores vícios da Ashnikko, com aquele autotune estridente aplicado em refrões exaustivos, e as pretensas grandes poesias da Melanie Martinez, que parecem milimetricamente calculadas para impressionar pré-adolescentes em sua fase de rebeldia. Chega a ser ridículo observar o posicionamento de "the red apple" dentro dessa estrutura, uma faixa que transborda uma energia eufórica, prometendo abrir as cortinas para uma narrativa minimamente conceitual, mas que no fim das contas não passa de uma promessa vazia servindo de vitrine para um trabalho que se mantém irritantemente morno.
Essa tentativa forçada de grandiosidade nos leva ao ponto mais crítico do disco, que é a escolha da cantora de transformar as músicas em espetáculos tão exageradamente teatrais que o resultado cruza rapidamente a linha da performance para estacionar num constrangimento agudo, daquele tipo que te faz querer pausar a música por puro desconforto físico. O epicentro desse desastre atende pelo nome de “head, shoulders, knees and ankles", a música soa como algo arrancado à força da trilha sonora de Billie Bust Up — aquele jogo rítmico de plataforma que teve algumas das faixas que fizeram um barulhinho —, mas sem o charme de ser, de fato, a trilha de um jogo. A artista até tentou justificar a bagunça dizendo que a faixa tenta traduzir a sensação caótica de um sonho. Bom, se isso é um sonho pra ela, pro ouvinte soa muito mais como um pesadelo.
Em última análise, o que afunda the apple tree under the sea é a insistência de hemlocke springs em se ancorar em ideias que já nascem saturadas pelo esgotamento da vertente electropop, brincar com os excessos estéticos dos anos 2000 sem possuir um refinamento afiado é o caminho mais rápido para transformar o que deveria ser uma reverência camp num barulho simplesmente desagradável. Talvez, se ela tivesse tido o bom senso de podar os exageros teatrais e condensar as poucas boas ideias em formato de EP, o saldo final fosse bem menos negativo.
Selo: Awal
Formato: LP
Genêro: Pop / Electropop, Synthpop