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April Harper Grey, que há muito se aventura em terrenos férteis de gêneros e subgêneros da música eletrônica, com um verniz pop fincado no que se tem de pop/dance na década de 2020 até agora, sabe como dosar suas investidas por um terreno de interesses trocados. Na faixa de abertura, “Tell Me (U Want It)”, é como se misturasse Jane Remover com Porter Robinson em ganchos de glitch pop com velocidade reduzida e foco em vocais mais trabalhados do que os de ambos os citados. Isso acaba pressupondo, para muitas pessoas, um ponto de inovação, porque soa: 1) como algo que elas conhecem, mas 2) tratado em uma perspectiva até então nova. O mesmo ocorre com o dubstep de “Music”, mais pop do que nunca.
É como um modelo cujo sentido de inovação, no entanto, não existe. E não existe justamente porque essas próprias estéticas (o dubstep e o glitch pop), dentro de seus espaços e com seus artistas, mudaram, se transformaram, receberam novas impressões. Basta ver o pedestal que Skrillex ocupa hoje, levado super a sério. É o Aphex Twin do EDM. E então vem underscores, entra nessa onda e pega algo que já está naturalmente impregnado por um sentido de inovação, acrescentando suas próprias características. O que é natural, mas acaba sendo exacerbadamente visto como uma ruptura de paradigmas apenas porque existe uma colocação de novidade que, pasmem, também é natural, afinal, seria um absurdo ouvir um disco como esse e ver que ele não acrescenta em nada ao som que pega para si.
O problema mesmo está na dificuldade imensa que as pessoas têm de entender referências, pessoas, neste caso, fãs de música alternativa e, em sua maioria, usuários do RYM/AOTY, que acabam tendo um peso gigantesco na definição do que esse demográfico, o alternativo, tem de interessante hoje. Eles não conseguem entender que um artista pode ter boas referências e não necessariamente reinventar algo sempre que as usa. E esse álbum em questão está sendo tratado como uma completa reinvenção de suas referências, quando, na verdade, é apenas uma artista mudando um pouco o seu próprio som e testando características que vêm de suas referências e influências. É um disco bom? Quem sabe, achei legalzinho. Mas não passa disso. O problema de lidar com referências assim é que você nitidamente está ouvindo algo (em tese novo) ali, mas que já ouviu, já absorveu antes… Então, por mais que tenha alguns momentos bem divertidos, como “Hollywood Forever” e “Do It”, nada escapa de uma sensação de familiaridade convertida por ritmos que apenas se repetem.
Selo: Mom+Pop, Corporate Rockmusic
Formato: LP
Gênero: Pop / Electropop, EDM