Crítica | U


★★

É curiosa a ideia que certos artistas têm atualmente, que é basicamente reaproveitar sons e estéticas (que mudaram conforme o tempo) e refazê-las com um sentido de inovação que, de certa forma, não existe. Essa noção está presente em diversos lançamentos dos últimos anos, principalmente naqueles que tentam expor algumas marcas da música eletrônica e conquistar um espaço de experimentalismo de gênero sem, de fato, propor ou avançar por construções de música de vanguarda propriamente dita. U, novo álbum do projeto underscores, é um exemplo mais didático disso.

April Harper Grey, que há muito se aventura em terrenos férteis de gêneros e subgêneros da música eletrônica, com um verniz pop fincado no que se tem de pop/dance na década de 2020 até agora, sabe como dosar suas investidas por um terreno de interesses trocados. Na faixa de abertura, “Tell Me (U Want It)”, é como se misturasse Jane Remover com Porter Robinson em ganchos de glitch pop com velocidade reduzida e foco em vocais mais trabalhados do que os de ambos os citados. Isso acaba pressupondo, para muitas pessoas, um ponto de inovação, porque soa: 1) como algo que elas conhecem, mas 2) tratado em uma perspectiva até então nova. O mesmo ocorre com o dubstep de “Music”, mais pop do que nunca.

É como um modelo cujo sentido de inovação, no entanto, não existe. E não existe justamente porque essas próprias estéticas (o dubstep e o glitch pop), dentro de seus espaços e com seus artistas, mudaram, se transformaram, receberam novas impressões. Basta ver o pedestal que Skrillex ocupa hoje, levado super a sério. É o Aphex Twin do EDM. E então vem underscores, entra nessa onda e pega algo que já está naturalmente impregnado por um sentido de inovação, acrescentando suas próprias características. O que é natural, mas acaba sendo exacerbadamente visto como uma ruptura de paradigmas apenas porque existe uma colocação de novidade que, pasmem, também é natural, afinal, seria um absurdo ouvir um disco como esse e ver que ele não acrescenta em nada ao som que pega para si.

O problema mesmo está na dificuldade imensa que as pessoas têm de entender referências, pessoas, neste caso, fãs de música alternativa e, em sua maioria, usuários do RYM/AOTY, que acabam tendo um peso gigantesco na definição do que esse demográfico, o alternativo, tem de interessante hoje. Eles não conseguem entender que um artista pode ter boas referências e não necessariamente reinventar algo sempre que as usa. E esse álbum em questão está sendo tratado como uma completa reinvenção de suas referências, quando, na verdade, é apenas uma artista mudando um pouco o seu próprio som e testando características que vêm de suas referências e influências. É um disco bom? Quem sabe, achei legalzinho. Mas não passa disso. O problema de lidar com referências assim é que você nitidamente está ouvindo algo (em tese novo) ali, mas que já ouviu, já absorveu antes… Então, por mais que tenha alguns momentos bem divertidos, como “Hollywood Forever” e “Do It”, nada escapa de uma sensação de familiaridade convertida por ritmos que apenas se repetem.

Selo: Mom+Pop, Corporate Rockmusic
Formato: LP
Gênero: Pop / Electropop, EDM

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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