Crítica | Cherry Rush


★★★★½

De forma triste, as atividades do Cherry Bullet foram encerradas. O Aquele Tuim, então, celebra a musicalidade e talento do grupo com uma análise do seu primeiro EP: Cherry Rush.

De 2019 até os dias atuais, o grupo Cherry Bullet sempre se mantinha em atividade da forma que era possível: participações em reality shows, lançamentos anuais com apenas cinco músicas, baixa promoção, saída de integrantes e grandes falhas no gerenciamento. Em “Q&A”, a primeira canção das meninas, elas pareciam caminhar por um lado diferente e explorar bem a sonoridade color pop, que vinha se perdendo ao longo do tempo, e isso chamou a atenção, principalmente pelo intuito conceitual do grupo, em que elas viviam em um videogame e se aventuravam. Mas, infelizmente, após cinco anos, o Cherry Bullet acabou se separando devido a grandes cortes de gastos pela empresa, FNC Entertainment. Por ser um grupo pequeno, elas ainda não tinham chegado no patamar de autossuficiência e o futuro era incerto.

E demorando dois anos para receber o primeiro EP – Mini Album, como é popularizado no K-Pop –, o grupo então nos entrega o Cherry Rush, primeiro projeto da trilogia “Cherry”. Era uma grande possibilidade que, após os três primeiros projetos, a nova trilogia surgisse com o “Bullet” em evidência, mas não duraram o suficiente para saber se isso realmente seria possível ou não. Sendo o seu melhor projeto, o grupo explora um lado adormecido e aquilo que tem de melhor na música popular sul-coreana.

Em “Love So Sweet”, faixa-título do EP, um pop adocicado é apresentado. Uma canção leve, mas que consegue ser energética, divertida e extremamente viciante. Ela brinca com elementos sonoros, como nos trechos “20 decibeis, mantenha isso em segredo entre você e eu”, e o “Shh!” logo após os refrões, em que elas começam a sussurrar na frequência de 20 decibeis — é um ponto bem sutil e discreto, mas que faz toda a diferença quando é percebido.

“Follow Me” é aquela canção exagerada que você se pergunta o que deu em alguém para ela ser lançada — e é isso que a faz ser um pouco mais interessante. Possui vários elementos que a movem para o lado enjoativo e extremamente fofo, mas parece que tudo contribui para que você fique compulsoriamente ligado naquilo que acontece durante 3 minutos e 41 segundos, seja pelo jeito que é cantado ou pelo instrumental que passa a maior parte do tempo de forma contida, e apenas no refrão acontece uma enorme explosão acompanhado por “Me siga, la pampa!”.

O teen crush já começa a surgir em “Keep Your Head Up”. Como uma mistura de “Hands Up!” e “Q&A”, a canção tenta ser um pouco mais ousada, tanto na abordagem lírica quanto na sonoridade. É a faixa mais pesada do EP, e seu instrumental impactante se complementa com os trechos: “Vamos todos dar uma volta, hein? Vai ser divertido / É sexta à noite, mamãe e papai estão dormindo / Está na hora de mudar o estilo”. Pode parecer algo muito simples e inofensivo, mas para um grupo que passou anos cantando apenas sobre como o amor é divertido e colorido, uma canção que exalta uma personalidade diferente se destaca.

“Whatever” é uma daquelas faixas que seguem na pegada disco pop que estava nas tendências musicais em 2021. Ela é divertida e consegue se manter estável durante a sua duração, se concretizando como uma das melhores do EP. Sem contar que é uma ponte perfeita para a última canção. Encerrando o EP, “Ting-a-ring-a-ring” é a peça mais lenta do projeto. Focada nos vocais do grupo, ela é confortável e traz uma sensação de nostalgia. Toda vez que ela é reproduzida, parece que estamos revisitando um lugar querido.

O Cherry Rush é um grande sumo das melhores essências do Cherry Bullet e do cenário do K-Pop. As faixas são divertidas e cheias de emoção, demonstrando uma coesão durante 17 minutos. Diante de tantas negligências, o encerramento precoce do Cherry Bullet era previsível, ainda mais quando se analisa “P.O.W! (Play On The World)”, último single do grupo. A letra fala sobre se divertir e não ligar para o tempo, pois todas as preocupações se apagarão. O último trecho é um pouco emblemático, já que ele diz: “Me observe e diga olá enquanto não é tarde”. É raro ver empresas dando indícios que seus grupos irão acabar, mas tudo se direciona para o fim.

Haeyoon, Yuju, Bora, Jiwon, Remi, Chaerin, May, e até mesmo Kokoro, Mirae e LinLin – integrantes que saíram do grupo em 2019 – fizeram um bom trabalho durante esses anos, demonstraram seus talentos e encheram os dias de diversos fãs com muita alegria. Torcemos para que elas consigam alcançar e realizar novos desejos a partir dessa nova etapa.

Obrigado, Cherry Bullet.

Selo: FNC
Formato: EP
Gênero: Música do Leste e Sudeste Asiático / K-Pop, Dance
João Vitor

20 anos, nascido no interior da Bahia e graduando em Ciências da Computação. Faz parte das curadorias de Música do Leste e Sudeste Asiático no site Aquele Tuim.

Postagem Anterior Próxima Postagem