Crítica | Paixão Nacional


★★½

Em Paixão Nacional, Mateus Carrilho escorrega ao não conseguir criar ambientações que unam o punhado de referências que ele tem em mãos.

Em uma carta aberta no dia do lançamento de seu primeiro disco solo, Paixão Nacional, Mateus Carrilho conta que o projeto é fruto de uma reflexão sobre sua carreira e arte durante o período de pandemia. Acrescenta ainda que a maioria das letras são reflexos do que ele estava vivendo naquele momento, e que o disco marca seu renascimento artístico assim como busca mostrar o seu melhor e a riqueza sonora do Brasil.

Entretanto, o projeto que nasce com essa proposta ambiciosa de transpassar ao público o seu “melhor”, não faz jus a sua ideia. Com estética repaginada e muito bem trabalhada nos visuais, Carrilho escorrega grave ao não conseguir criar ambientações que encaixem e unam esse punhado de referências que ele tem em mãos com as combinações excêntricas que são desenvolvidas na produção das faixas.

Realmente, o disco é banhado de uma riqueza sonora incontestável, de experimentações bastante interessantes, como, por exemplo, na faixa de abertura, que somos contemplados com uma bossa nova clássica que se mistura maravilhosamente bem com beats de funk, mas que, infelizmente, é afetada por uma letra mal escrita. Além disso, um dos maiores problemas ao longo do disco são líricos, tentando reproduzir grandes composições da bossa nova ou soar menos direto explicitamente.

O intérprete mostra que sua fraqueza em composição se apoia em metáforas ruins para construir uma narrativa mais rebuscada e que seja coesa ao seu novo visual estético. Outro ponto que afeta muito o trabalho é a má execução na transição entre as faixas, que deveriam ser mais leves a fim de dar uma melhor suavidade e experiência ao ouvinte.

E o amor, por sua vez, é o alicerce central de Paixão Nacional: carente, festivo, raivoso ou esperançoso, as diversas faces desse sentimento são amplamente discorridas ao longo das 10 faixas do projeto, o que faz ser repetitivo nas letras e enfadonho o processo de o escutar até o final.

Com um pé no passado, mas sem deixar o presente, o álbum se debruça sem medo pela experimentação da música brasileira — antiga e contemporânea — porém, não mostra o crescimento artístico de Carrilho, apenas difere por ser liricamente menos explícito em seus desejos ao que seus trabalhos anteriores eram.

Tudo em Paixão Nacional é solto, não possui uma peça que encaixe essa infinidade de ideias, que deixe menos ressaltado que Mateus ainda está perdido em como se aproveitar das fontes criativas que bebe.

Selo: Mateus Carrilho
Formato: LP
Gênero: Pop / Bossa Nova, Funk
Joe Luna

Futuro graduando de Economia Ecológica (UFC), 22 anos. Educador ambiental, e redator no Aquele Tuim, onde faço parte das curadorias de MPB, Pós-MPB e Música Brasileira e Música Latina/Hispanófona. Além disso, trago por muitas vezes em minha escrita uma fusão com meu lado ambientalista.

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