Crítica | DATA


★★★★

DATA, de Tainy, tem uma forma própria de explorar temas e sonoridades que se desprendem da barreira espaço-temporal da música contemporânea.

Antes mesmo de ouvir o álbum, a primeira coisa que me chamou atenção de cara foi a capa — e nesse caso, vale dizer que eu não tenho familiaridade alguma com o trabalho desse artista. Difícil não associar a Ghost In The Shell, filme de 1995, que já me remete instantaneamente ao cyberpunk, o que faz pensar que é um álbum de música trap, vide Travis Scott, ou algo associado ao hyperpop, com elementos eletrônicos mais exagerados. Uma coisa que essa capa não engana, entretanto, é de se tratar de um álbum futurista.

O futurismo, contudo, não é esse supracitado; de apenas se utilizar de elementos eletrônicos, de exagerar a potência da instrumentalização eletrônica. Mas sim, um futurismo associado com à incorporação das estéticas eletrônicas mundiais. Aqui se vê de tudo: neoperreo, reggaeton, o trap espacial de Travis Scott; e a música ambiente experimental de Arca.

Nesse sentido, vale notar que o reggaeton é frequentemente associado a um gênero repetitivo, desde sua popularização há alguns anos atrás e, principalmente, após sua recente invasão nos charts globais. Muito do que sempre se diz sobre o gênero, fora da zona do preconceito puro (racismo, barreira linguística), é totalmente formado nessa relação com a "repetição". Sem querer entrar no mérito se essas críticas significam algo, ou não — em DATA, isso é basicamente impossível de ser uma crítica.

Pelo contrário, esse álbum tem aversão à repetição, toda música está dentro de sua própria lógica, e por vezes ocorrem, até mesmo, a excessividade dessas lógicas em uma só música (caso de: PASIEMPRE, FANTASMA | AVC, LA BABY…). É comum e natural passar por canções de inspiração oitentista europeia, e, ainda sim, se encontrar dentro das ruas e becos da América Latina.

É como imaginar o futuro, ou ouvir um álbum que veio do futuro, nos encontrar em 2023. Lá, talvez, o terceiro mundo tenha explodido, e agora, toda incorporação e influência é válida. Melhor ainda é saber que isso, na verdade, é produto do nosso próprio tempo. Verdadeiramente revolucionário.

Selo: NEON16
Formato: LP
Gênero: Música Latina / Reggaeton, Neo-Perreo
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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