Crítica | No Tempo da Intolerância


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Hoje, celebramos a imortalidade de Elza Soares através de No Tempo da Intolerância, álbum póstumo que reúne o testemunho da artista diante de um país dominado pelo ódio e pela injustiça.

As raízes da intolerância no Brasil não remontam apenas aos desastrosos quatro anos do governo de Messias Bolsonaro. São 500 anos de colonização, genocídio, apagamento histórico e cultural. São, infelizmente, aspectos que se enraizaram e que estruturam os alicerces da sociedade brasileira ao longo dos séculos até os dias de hoje.

Em seu novo álbum póstumo, No Tempo da Intolerância, Elza Soares entra sem cerimônia nas entranhas deste Brasil tomado pelo medo e crises sociais, partindo de temas embalados pelo samba e outros ritmos nacionais com muita guitarra.

Elza desvenda de forma bastante crítica esses aspectos e problemas que compõem a sociedade brasileira, e destaca os impactos de um dos períodos mais terríveis da história recente do Brasil, que se agravou após o golpe de 2016 na então presidente da época, Dilma Rousseff. O que se segue ao golpe é um aprofundamento da divisão da sociedade brasileira como um todo.

O ódio tirou a sua máscara e o retorno da população à extrema pobreza revelou uma grave crise política e social no país. As taxas de violência dispararam no final da década de 2010. E a eleição de Jair Bolsonaro e a pandemia da COVID-19 agravaram problemas e divisões no Brasil.

No Tempo da Intolerância — que traz composições de Pitty, Rita Lee, outros e da própria Elza — passeia por esse Brasil mergulhado em problemas sociais. Cada faixa, liricamente, fala de um problema específico que a população mais pobre do país tem enfrentado, do preconceito racial à falta de comida na mesa.

O projeto é sobre um Brasil atual que foi construído ao longo dos séculos em cima desses problemas que perduram até a contemporaneidade. É o Brasil em que a resposta com a arma superou o diálogo; o preconceito tornou-se explícito; e a desigualdade era escancarada.

Uma obra que fala do passado, do presente e deixa uma mensagem para o futuro. Mesmo depois de sua morte, faz Elza soar atual e necessária. A sua voz enquanto canta em “A Mulher do Fim do Mundo” continua e continuará sendo escutada mesmo após o fim de tudo.

Selo: Deck
Formato: LP
Gênero: Música Brasileira / MPB, Samba
Joe Luna

Futuro graduando de Economia Ecológica (UFC), 22 anos. Educador ambiental, e redator no Aquele Tuim, onde faço parte das curadorias de MPB, Pós-MPB e Música Brasileira e Música Latina/Hispanófona. Além disso, trago por muitas vezes em minha escrita uma fusão com meu lado ambientalista.

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