Crítica | "ETA"


★★★★½

NewJeans aguça suas características primordiais em uma música contagiante e repleta de contrastes agridoces.

Apesar das divergências do público que acompanha a indústria do k-pop, a quinta geração está em formação e em convívio simultâneo com a anterior. Dotada de estilística e características que acenam para direções próprias, a grande parte dos grupos que estão moldando são nugus — expressão coreana romanizada, que costuma se referir a artistas e grupos que estão na cena underground ou possuem menor projeção. Nesse sentido, NewJeans está longe de se identificar com a maioria de seus pares, mas o grupo já se tornou um pilar essencial dessa nova fase do pop sul-coreano.

O quinteto é o grande projeto de Min Heejin após sua saída da SM Entertainment, em 2018. Em pouco mais de um ano em atividade, tudo o que elas já fizeram é repleto de vigor, se tornando parâmetro (principalmente para as grandes empresas) na conjuntura de gestão de lançamentos, construção de marca, parcerias comerciais e em estéticas visuais e sonoras.

Estendendo sua onipresença do MelOn até os charts diários do Spotify Global, todo mundo vibrou com os hinos cativantes, com a narrativa intrigante dos videoclipes de “Ditto”, com as coreografias virais de “Hype Boy” e “OMG” e até com o coelhinho simpático que estampou algumas das capas digitais, e se tornou o principal signo visual do grupo. Get Up simboliza, portanto, o primeiro ponto de virada mais significativo de NewJeans, e “ETA” é um excelente indicativo.

Terceira faixa do EP, nela as meninas estão tentando convencer uma amiga a largar o namorado, que está mentindo e a traindo. É um tom dúbio de fofoca e alerta, que resulta numa mistura de sentimentos agridoces e que podem causar estranheza — mas contagia. Isso se provou já no fan meeting Bunnies Camp, onde a música foi apresentada pela primeira vez e sua performance fez a plateia ficar em polvorosa.

No emaranhamento desse telefone sem fio, a produção eufórica de 250 (Lee Ho-hyung) traça o real contraste de “ETA” com o restante do catálogo do grupo. As melodias e os vocais suaves que conquistaram o público desde o princípio permanecem, mas o protagonismo real se dá pelos elementos estridentes e, na medida certa, cacofônicos.

Por dois minutos e meio, a faixa propõe uma aproximação assertiva do baltimore club com o baile funk, dois movimentos disruptivos de cultura preta. Há a dominância instrumental de buzinas de ar em loop, com think breaks espalhados pelos versos e destacados no refrão, mais especificamente nas repetições da indagação “What’s your ETA?”. É um escopo arriscado e que poderia facilmente sair da experimentação e resultar na caricatura, mas a produção se articula e funciona muito bem.

“ETA” aguça um aspecto fundamental que faz NewJeans se sobressair, num momento tão prolífico para girlgroups: flexionar aspectos de vanguarda com um enorme apelo comercial. Anteriormente exploradas apenas por artistas independentes da cena coreana, o grupo foi um quase pioneiro em trazer vertentes como drum and bass e jersey club para o mainstream do k-pop. Agora, elas demonstram que não se limitam e estão dispostas a projetarem tudo o que o gênero precisa. E estaremos aqui, empolgados para acompanhar os próximos passos.

Selo: ADOR
Formato: Single
Gênero: K-Pop
Felipe

Graduando em Sistemas e Mídias Digitais, com ênfase em Audiovisual, e Estagiário de Imagem na Pinacoteca do Ceará. É editor do Aquele Tuim, contribuindo com a curadoria de Música do Continente Africano.

Postagem Anterior Próxima Postagem