Crítica | Ulaan



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Ulaan, de Enji, é a constatação da música como linguagem universal dos sentimentos e dos afetos, independente de seu idioma.

Talvez, o que torna a experiência de escutar músicas estrangeiras fascinantes seja o mergulho rumo ao desconhecido de suas letras e melodias. O que o artista quer expressar nessa língua estranha? Como esses ritmos e técnicas imprimem sua nacionalidade nas canções? Numa análise quase antropológica, abraço o terceiro álbum de estúdio da cantora mongol Enji em todo o seu ímpeto.

Enji é uma cantora de nacionalidade mongol que reside em Munich na Alemanha, tendo como traço principal de suas músicas a mescla do Jazz Vocal com elementos da música tradicional mongol.

Embora tenha trabalhado anteriormente em seu idioma nativo, seu terceiro álbum de estúdio, Ulaan, funciona como um manifesto de identidade. “Ulaan” é um apelido carinhoso dado pela sua família. Entretanto, a autoafirmação não se prende ao sujeito da cantora, mas a sua identidade como mulher mongol que, mesmo a milhares de quilômetros de distância de sua terra natal, ainda mantém sólidos laços com sua nação e família.

Durante as músicas, a artista usa técnicas vocais que remetem às utilizadas em músicas tradicionais mongóis, como movimentos rápidos com a boca (“Libelle”), sons mais graves e trechos que relembram declamações de poemas (“Zuud”).

Este clima de ligação com a Mongólia gera o que há de mais belo neste álbum: os sentimentos envolvidos. Enji e sua banda nos transportam em um misto de sensações e emoções que independem de conhecer ou não a língua mongol. Ulaan é um disco para sentir e ouvir enquanto fecha os olhos. A experiência pode render até algumas lágrimas!

Em “Zuud” é possível sentir a tristeza e melancolia, em “Vogl” a saudade, em “Uzgdel” a reslumbrância. Estes sentimentos estão lá e são vivos e profundos. São sensações que comprovam que a música não depende de barreiras quando ela é pensada para ser sentida. Escutar Ulaan é como ler um diário íntimo que lhe foi confidenciado, uma autoetnografia; é permitir se afetar pelos sentimentos de outra pessoa através da sua empatia.

Ulaan não é uma constatação de como a música deve soar, ou de como ela deve se estabelecer com o ouvinte, mas Enji constrói uma maneira de transmissão e conexão que só a música consegue, e isso é muito lindo!

Selo: Squama
Formato: LP
Gênero: Música do Leste e Sudoeste Asiático / Vocal Jazz
joão lucas

Potiguar, mulçumano e graduando em Ciências Sociais. Escrevo sobre o que me cativa e o que me apetece. Redator e curador de Folk/Country, Música do Leste e Sudeste Asiático e Pop/R&B no Aquele Tuim.

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