Crítica | Acelero



★★★★

Acelero é, em sua complexidade de significados, um álbum que arranca os símbolos do funk ao mesmo tempo em que mistura suas abstrações em busca do relato.

Embora soframos com as alterações climáticas, com as duras intempéries sociais do capitalismo e tudo o que daí resulta, ainda estamos, de alguma forma, vivos. Não é a melhor das sensações: é algo estranho. Os algoritmos estão se tornando cada vez mais ditosos e a Inteligência Artificial está na moda.

Tudo isso faz parte do espaço que compreende o tempo. E o tempo já não é suficiente para nada: nem para o amor, nem para o ódio. A questão que fica é se estamos no nosso limite — pessoalmente, passei a acreditar nisso nessa onda de calor do final de 2023. E a resposta pode ser mais uma pergunta: qual é o limite? Até onde devemos ir?

Acelero, de Crizin da Z.O., projeto formado por Danilo Machado, Cris Onofre e Marcelo Fiedler, é mais um elemento que condiciona nossas reflexões. Aqui há uma certa atmosfera dolorosamente cotidiana, não representativa, mas descritiva de muito do que se vive à margem. E nada melhor para representar isso do que o funk e toda a sua ordenação caótica de múltiplas linguagens.

“É o mundo se acabando”, exclama Cris Onofre em “O Fim Um”, faixa que abre o disco sob o primeiro verso de toda esta viagem pela realidade sufocante cujo projeto aponta, que não só é revelador como também instigante. De forma semelhante ocorre com o título das músicas ao longo da obra. Há uma discussão nas entrelinhas sobre o que elas representam como um todo.

Obviamente este disco não corresponde a uma narrativa com começo, meio e fim, tampouco é uma peça conceitual sobre o apocalíptico encerramento dos tempos — é mais profundo que tudo isso. Observe como as músicas, postadas no funk carioca ajustado à uma densa e, em tese, contraproducente mistura de elementos que vão de experimentações percussivas até o techno hardcore orientado pelo gabber, têm como princípio a fundição do relato.

Desta forma, estudam-se os aspectos mais dispersos da criação lógica resultante, como se o som impusesse substância a toda abordagem existencial e social presente no decorrer do objeto central, razão pela qual, apesar de presente, o funk acaba por sofrer mutações. É por isso também que faixas como “Festa da Carne” codificam o cenário de repetições agudas e de composição demarcada por uma naturalidade instantânea, de forma que não seja necessário ir além do que está exposto em versos contundentes do começo ao fim.

Acelero é, em sua complexidade de significados, um álbum que arranca os símbolos do funk ao mesmo tempo em que mistura suas abstrações — políticas ou não — rumo a diferentes perspectivas acerca do que o atual momento na conjuntura musical representa. É, também, uma combustão sonora que reverbera, entre as suas camadas e texturas eletrônicas, o fio condutor de algo a superar os espaços preenchidos por Crizin da Z.O. e toda sua construção inconfundível.

Selo: QTV
Formato: LP
Gênero: Funk / Experimental
Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

Postagem Anterior Próxima Postagem