Crítica | ALTA TENSÃO


★★

ALTA TENSÃO é um projeto que tenta apresentar o experimentalismo de um artista com pouca habilidade para fazer um álbum que desafie as convenções da música pop.

É interessante ver artistas se propondo a experimentar em suas obras musicais. Em ALTA TENSÃO, CHAMELEO se mostra empenhado em apresentar um trabalho que fuja do convencional na música pop. Isso é evidenciado na entrevista que ele deu para a página Tracklist em que, além de expor o caráter supostamente experimental do disco, ele comenta sobre perceber a formação de um público de fãs de cantores pop que estão cada dia mais abertos ao novo e ao diferente.

ALTA TENSÃO tenta fazer uma mistura única de influências de diferentes estilos musicais latinos com a eletrônica, a fim de criar um som extremamente eletrizante e que transmitisse o estado psicológico agitado do artista devido aos seus problemas de ansiedade. O problema é que CHAMELEO falha em executar bem as ideias aqui propostas. Divergindo das intenções do artista, as influências eletrônicas do registro soam óbvias demais em muitos momentos. Em “220v”, por exemplo, embora cativante, a mistura de reggaeton com electropop é tão genérica quanto se poderia imaginar.

Ademais, outro problema que pode-se perceber em diversas das faixas do disco é que, ao tentar se encaixar na energia eletrizante dessas, sua performance soa estridente. Sua voz, além de não funcionar junto a esse tipo de som, carece de qualquer carisma que poderia deixar as músicas cativantes.

Há muito pouco experimentalismo ao longo do álbum, e os raros momentos não convencionais são os que soam mais desagradáveis. A canção “ALTA TENSÃO” é a principal responsável por manter algum viés de experimentalismo ao se aventurar em ritmos e estrutura musical singulares dentro do funk. E, embora haja momentos em que as ideias são executadas de forma intrigante, como o funk misturado com envolventes sintetizadores eletrônicos, há várias situações, como a batida do kuduro no refrão, que soam simplesmente intragáveis.

Além disso, a performance vocal do artista na já citada “ALTA TENSÃO” intensifica a má qualidade da faixa. No último verso, por exemplo, ele tenta apresentar um caráter imponente em sua voz que é falha porque o resultado é risível, por outro lado, no refrão seus vocais são manipulados de modo a ficarem parecidos com uma gravação abafada, porém, o produto disso é detestável.

Curiosamente, a maioria dos bons momentos do disco são aqueles nos quais CHAMELEO menos propõe-se a apresentar uma sonoridade disruptiva para a música popular. Nessas músicas, ele não busca fazer uma experimentação a qual não está preparado para entregar, resultando assim em canções menos pretensiosas. Ainda assim, essas são faixas que, embora comuns, conseguem soar mais aprazíveis por explorarem território no qual o autor já tem um domínio razoavelmente bom.

No geral, ALTA TENSÃO é um projeto que tenta apresentar o experimentalismo de um artista com pouca habilidade para fazer um álbum que desafie as convenções da música pop — e também conta com pouco conhecimento do que seria, de fato, experimental. O produto final é um álbum em que suas faixas soam muito mais comuns do que ele imaginava e, quando consegue um resultado menos convencional, soam muito enfadonhas.

Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Pop / Electropop
Davi Bittencourt

Davi Bittencourt, nascido na capital do Rio de Janeiro em 2006, estudante de direito, contribuo como redator para os sites Aquele Tuim e SoundX. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Música do Leste e Sudeste Asiático, Pop e R&B.

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