Crítica | still-life


★★★

O maior nome do digicore retorna no primeiro dia do ano com uma surpresa nada surpreendente: um EP de indie pop.

Com o surgimento e popularização do hyperpop e do digicore — que são gêneros internéticos alternativos focados em texturas eletrônicas maximalistas — notou-se também uma tendência particular, mas que se repetiu com uma frequência tão alta que não pode ser chamada de coincidência. Estou falando dos artistas de tais gêneros sempre lançarem um projeto de rock alternativo ou indie pop.

Exemplificando, Frost Children e underscores lançaram projetos de ambos gêneros ano passado. Similarmente, 100 gecs, Jane Remover e Dorian Electra também o fizeram, mas apostando em subgêneros do rock alternativo e largando o pop de mão. Já no campo do digicore, ericdoa, brakence e midwxst também se aventuraram em gêneros como o emo-pop nos últimos anos. Enfim, esses são, em suma, os nomes mais influentes desses movimentos auto-ridicularizantes e hiperbólicos, e, como podemos ver, quase todos partiram para sonoridades de ondas ainda populares, mas que atingiram seu pico décadas atrás, em movimentos culturais aparentemente distintos.

Agora, qual o motivo disso? Bem, diria que o que ocorre dentro do movimento hyperpop é, na verdade, a continuação do movimento indie/alternativo/emo/punk do começo dos anos 2000, só que numa era da internet mais avançada e culturalmente inchada. É a mesma estética adolescente e inconformada com os padrões atuais presente naquela época, mas agora mais ácida, satírica consigo mesma e mais tecnológica que nunca. Consequentemente, é natural que esses artistas do hyperpop homenageiem seus ídolos e tentem replicar o que tanto amam em sua música, mas dessa vez sonoramente.

De qualquer forma, esse EP é um reflexo óbvio desse fenômeno, em que o maior nome em inovação e reconhecimento do digicore atual, o brasileiro twikipedia, escolheu ensaiar seus vocais totalmente tomados pelo autotune em cima de guitarras agradáveis e baterias programadas diretamente de um notebook idoso da positivo. Os refrões e melodias do disco, inspiradas no frescor e júbilo de atos como The Smiths., encontram a quentura DIY e a doçura ingênua do bedroom pop, e então formando um curto experimento que sucede em seu conforto de algodão e agrado fugaz. Pode não ser original, mas é uma interessante continuação desse ciclo “hyperpop para rock alternativo/indie” que envolve o ouvinte numa felicidade contínua e despretensiosa.

Selo: Independente
Formato: EP
Gênero: Pop / Indie Pop, Twee Pop, Indie Folk
Sophi

Sophia, 18 anos, estudante e redatora no Aquele Tuim, em que faço parte das curadorias de Rap e Hip Hop e Experimental/Eletrônica e Funk.

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