Crítica | I Wanna Be Tour


★★★½

Apesar dos percalços, o evento foi uma jornada ao passado, um encontro com as memórias que moldaram a nossa juventude.

No último sábado (02), os corações nostálgicos se encheram de alegria e emoção no festival I Wanna Be Tour. O evento musical foi uma jornada ao passado, um encontro com as memórias que moldaram a nossa juventude — me incluo nessa. A cada acorde e a cada batida, era como se voltássemos aos momentos que definiram quem somos hoje.

Doze bandas, uma seleção cuidadosa que representava tanto o cenário musical brasileiro quanto o internacional, tomaram o palco do Allianz Parque, em São Paulo, para celebrar o poder da música em conectar gerações. Desde alguns dos pilares do rock nacional como Fresno, NX Zero e Pitty até os renomados A Day To Remember, All Time Low, Simple Plan, etc., o line up foi uma viagem pelos hits que ecoaram em nossos fones de ouvido durante anos.

No entanto, nem tudo foi perfeito. O sucesso do evento se traduziu em ingressos esgotados, mas também trouxe consigo alguns desafios. A localização do Allianz Parque revelou-se problemática, com filas intermináveis, escassez de alimentos e desorganização nas entradas. A experiência dentro do festival, embora emocionante em termos musicais, foi manchada por essas dificuldades logísticas.

Ao refletir sobre os contratempos, fica claro que a escolha do local precisa ser reconsiderada para futuras edições. Preferencialmente, deveria ser em espaços abertos, onde as pessoas possam circular livremente e desfrutar de uma variedade de ambientes. As divisões por setores dentro do Allianz Parque limitaram a experiência, tornando difícil para os espectadores explorarem tudo o que o festival tinha a oferecer.

Apesar dos obstáculos, o espírito vibrante do público e a energia contagiante das bandas prevaleceram. O I Wanna Be Tour foi uma celebração da música e das lembranças que ela evoca em cada um de nós. Que nas próximas edições, a organização leve em consideração não apenas a qualidade do line up, mas também a acessibilidade e comodidade do local, para que todos possam usufruir plenamente desta experiência única.

Fresno

O festival tomou uma decisão não tão inocente ao abrir com Fresno, considerando sua imensa base de fãs. Apesar de ser a primeira atração e do breve tempo de apresentação, o show foi espetacular, destacando-se como um dos maiores acertos do evento – apesar da percepção de muitos de que o festival não soube valorizar adequadamente a banda. Fresno, ao longo do show, transitou por álbuns emblemáticos de sua carreira como Ciano, Redenção e Revanche, além de lançamentos mais recentes como Vou ter que me Virar, e o novo single "Eu Nunca Fui Embora", prelúdio do próximo álbum a ser lançado no próximo mês. A única ausência sentida foi "Cada Poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas", reconhecido como um dos pontos mais altos da trajetória da banda, tocando profundamente a vivência de muitos fãs. O festival pode ter subestimado o impacto que Fresno traria, mas para aqueles que testemunharam, ficou claro que a banda continua a manter-se firme na cena musical, deixando uma marca indelével.

Plain White T’s

O show da banda de pop-rock Plain White T’s destacou-se como um dos mais mornos entre todas as atrações do dia, contrastando com o vigor das demais performances. O momento mais aguardado, a execução de um dos maiores sucessos da banda, "Hey There Delilah", não alcançou a emoção esperada devido à participação de Day Limns, que, convenhamos, não foi solicitada e acabou por estragar o clima. A apresentação da Plain White T’s pareceu deslocada em relação ao restante do evento, deixando os fãs um tanto desapontados com a falta de energia e conexão. Esperava-se mais do grupo, especialmente em um momento tão emblemático, mas infelizmente não correspondeu às expectativas, deixando uma impressão aquém do esperado.

Mayday Parade

Derek Sanders aparentava estar feliz em solo brasileiro, destacando-se pela sua desenvoltura e carisma no palco, características marcantes do vocalista da banda Mayday Parade. Com sua presença de palco, a banda conseguiu resgatar o ânimo do público em meio ao calor do momento. A energia contagiante de Sanders e seus colegas trouxe uma nova vida ao ambiente, envolvendo os espectadores em uma atmosfera de entusiasmo e diversão. Sua conexão com a plateia brasileira foi evidente, deixando uma impressão duradoura e reforçando o apreço dos fãs pela banda.

Pitty

No período pré-festival, muitos questionavam a presença de Pitty entre os convidados. Alguns a acusavam de ir contra o movimento da época, enquanto outros simplesmente questionavam sua relevância. No entanto, é crucial destacar: o show da artista, a única mulher em meio a um line up dominado por homens, foi o destaque nacional do festival. Pitty trouxe parte da turnê de comemoração dos vinte anos de Admirável Chip Novo e selecionou músicas que ressoam profundamente com o público, fazendo com que todo o estádio cantasse junto. O evento teria sido ainda mais perfeito se tivesse apresentado o repertório completo da turnê. Sua presença e performance reafirmaram sua posição como uma das artistas mais importantes e influentes do cenário musical brasileiro.

Boys Like Girls

A banda norte-americana trouxe um espetáculo repleto de sucessos, destacando-se músicas do segundo álbum, Love Drunk, um dos maiores marcos de sua carreira. Entre os destaques, a performance de "Two Is Better Than One", parte das canções mais emblemáticas do grupo, envolveu o público em uma atmosfera de emoção e entusiasmo. Com sua energia contagiante e habilidade musical, a banda conquistou os espectadores, proporcionando momentos inesquecíveis durante o show. Desde os acordes iniciais até a última nota, a apresentação foi marcada por um mix de nostalgia e energia, demonstrando o motivo desta ser uma das bandas mais queridas e admiradas pelo público.

Asking Alexandria

Embora a banda não tenha sido parte da minha pré-adolescência, sempre desejei assistir a um de seus shows, apenas pela experiência – mas ela acabou sendo totalmente negativa. O som estava inconsistentemente baixo e destoante, com apenas os graves ocasionalmente se destacando. O show foi permeado por várias rodas-punk, visíveis em diversos espaços da pista, associadas às músicas mais agressivas da banda. Infelizmente, a experiência não correspondeu às expectativas, deixando uma impressão decepcionante em relação ao desempenho e a qualidade do som.

The Used

O show da banda norte-americana ganhou destaque quando convidaram Lucas Silveira, da banda Fresno, para uma colaboração especial. Juntos, eles emocionaram o público com a interpretação de "A Box Full of Sharp Objects", presente no álbum de estreia da banda em 2002, além de uma versão de "Smells Like Teen Spirit". Este momento pareceu ser o ponto alto da conexão emocional entre as bandas, criando um elo poderoso que ressoou com os fãs. A colaboração inesperada trouxe uma dimensão única ao show, evidenciando a universalidade da música e a capacidade de unir estilos e artistas em um mesmo palco.

All Time Low

Um dos shows mais esperados da noite não decepcionou. Com um setlist impecável, a apresentação foi marcada por uma energia contagiante e animada. Desde o início até o fim, a banda entregou uma performance que manteve o público totalmente conectado. Cada música era recebida com entusiasmo, resultando em uma atmosfera eletrizante e inesquecível.

The All-American Rejects

Tyson Ritter irradiou carisma, loucura e jogo de cintura no que foi o show mais surpreendente da noite. No entanto, o público morno não colaborou plenamente, tornando desafiadora a performance da banda. Apesar dos esforços para envolver a plateia, o estilo meio sarcástico do artista não agradou a todos. Ainda assim, a experiência foi agradável, deixando-nos questionar o que se passa na mente do vocalista. Mesmo diante dos obstáculos, Ritter e sua banda entregaram um espetáculo memorável, mostrando sua capacidade de adaptar-se às circunstâncias e proporcionar uma experiência única aos espectadores.

NX Zero

Cada show do NX Zero é uma experiência incrivelmente agradável, pois a banda é verdadeiramente única. Com uma seleção cuidadosa de seus grandes sucessos, como "Cedo Ou Tarde", "Daqui pra frente" e "Razões e emoções", eles conseguiram transportar a multidão do festival para uma viagem nostálgica para o passado. A energia contagiante e as letras emocionantes cativaram os fãs, proporcionando momentos inesquecíveis e reforçando o lugar especial que o NX Zero ocupa.

A Day to Remember

Foi um dos momentos de êxtase do público, destacando-se como uma das poucas bandas internacionais que conquistaram um grande engajamento dos espectadores dentro do estádio, com muitas vozes unidas e uma atmosfera eletrizante na pista. O show foi marcado por uma euforia contagiante, movimentado e repleto de emoção, culminando com uma interpretação emocionante de "If It Means a Lot To You".

Simple Plan

O melhor show da noite certamente foi marcado por uma série de hits inesquecíveis. A performance de "Jet Lag", com a participação de Air Yel e "Welcome To My Life", levaram a multidão à loucura. Um emocionante mashup de "All Star" do Smash Mouth, "Sk8er Boi" de Avril Lavigne e "Mr. Brightside" do The Killers agitou ainda mais o público. Momentos cômicos não faltaram, como em "What’s New Scooby Doo?", com algumas pessoas dançando no palco. A plateia brasileira foi surpreendida com "Vira-Vira", clássico dos Mamonas Assassinas, cantado em coro. Destaque para "I’m Just a Kid", com a participação de Di Ferrero e Pierre Bouvier na bateria, enquanto Chuck Comeau mergulhava na multidão durante o refrão. O festival encerrou com "Perfect", trazendo um momento íntimo e repleto de lembranças para muitos. Um espetáculo de fogos de artifício finalizou com grande estilo o primeiro dia da I Wanna Be Tour.

Se houver uma segunda edição do festival, espero que aprendam com os erros deste ano e façam melhorias significativas. Seria incrível ver a inclusão de nomes importantes da cena musical, como Green Day, The Offspring, Fall Out Boy, My Chemical Romance, entre outros.


Brinatti

Graduando em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia e Sociologia, 27 anos. É editor e repórter do Aquele Tuim, em que faz parte das curadorias de MPB, Pós-MPB, Música Brasileira e Pop.

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