Crítica | Just Tired 2


★★★★

Um lançamento diferente para o início do ano

Desafiar o ouvinte de rap pode ser uma tarefa mais difícil do que se imagina. Em uma certa parte do curso da cultura do hip hop, o gênero sempre teve um forte foco em ir contra o hegemônico, e quando falo isso muitos pensam nos anos 80 e 90 pela marginalização intensa, letras políticas e demonstração crua da realidade preta característica do gênero. Entretanto, é bom lembrar que a geração SoundCloud e seus desdobramentos e influências possuem um papel tão relevante quanto para a inovação no rap.

Dessa forma, o que Just Tired 2 faz é, justamente, intensificar essa inovação da geração SoundCloud por meio de algo surpreendente: um ambientalismo psicodelicamente seco que regurgita a si mesmo. Baseado no plugg e no cloud rap — gêneros conhecidos por serem pivôs centrais da subversão do que é rap dentro do próprio rap —, o projeto busca minimizar a paleta sonora o máximo que pode, mas sem deixar de dispor de uma quantidade extensa de texturas árduas e influências incomuns. O resultado são faixas em que Joeyy dificilmente parece estar vivo enquanto canta, e cenários totalmente imersos em escuridão em que a produção balanceia hi-hats saltitantes com microsounds matemáticos.

Dito isso, fica evidente o quão não ortodoxo esse EP é. Esse “plugg ambiente” consegue misturar em seu caldeirão, simultaneamente, baixos grossos e subliminares com melodias ambientais, místicas e pouco reconhecíveis, além de testar o mais ávido ouvinte de rap com flows indetectáveis e um carisma misterioso e inacessível. É possível que você odeie cada segundo, chame de preguiçoso, sonolento ou inaudível, mas não é assim que toda música experimental surge em sua verdadeira forma? Não é a própria rejeição que valida a maior das inovações? Just Tired 2 vale a pena de se ouvir precisamente por isso, se não odiar de primeira, ótimo, se o fizer, melhor ainda.

Selo: Independente
Formato: EP
Gênero: Hip Hop / Hip Hop Experimental, Plugg, Dark Plugg, Cloud Rap
Sophi

Sophia, 18 anos, estudante e redatora no Aquele Tuim, em que faço parte das curadorias de Rap e Hip Hop e Experimental/Eletrônica e Funk.

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