Crítica | olhar pra trás


★★★½

A sensação de olhar para trás é a de estarmos diante de uma história em que a paisagem sonora desempenha um papel crucial, nos envolvendo nos sentimentos e no desfecho dessa narrativa que mesmo simples é tão interessante.

Um ano nos separa do lançamento do primeiro álbum da banda paranaense terraplana, intitulado olhar para trás. A banda é um dos nomes atuais que se destacam no cenário musical pelo seu característico estilo shoegaze, uma mistura fluída de vocais obscuros, efeitos de guitarras distorcidas e etéreas. A facilidade de criar camadas sobrepostas de guitarras resulta em uma sonoridade densa, com acordes prolongados e notas sustentadas, as quais se fundem ao sentimentalismo encontrado nos versos das canções, são interpretados por vocais difusos que se destacam como uma linha temporal melódica.

"olhar pra trás", uma ode à verdadeira paz e autodescoberta, é um convite para se libertar das amarras do passado e se entregar ao momento presente, em busca do que é real. Em "conversas", reflete-se o cansaço de esperar que o outro aprenda com os erros, uma situação angustiante em que as vozes às vezes sutis e às vezes dramáticas em elo com as guitarras perturbadoras revisitam uma sensação de desgaste e resignação diante da dificuldade em compreender a outra pessoa. O sentimento de resignação é reforçado ainda mais em "memórias", em que diante da impossibilidade de mudar uma situação, os versos sugerem a aceitação de que as memórias precisam ser deixadas para trás, pois não há espaço para elas no presente.

O sentimento profundo e claramente doloroso, caracteriza "cais", que transmite uma sensação de morrer por dentro, indicando um estado de sofrimento emocional intenso. Essa sensação ressoa também em “me esquecer” e "você", cujos versos expressam confusão e desilusão após um término, contrastando com a dor e o reconhecimento da partida. Aqui, a clara vontade de deixar o passado descansar é enfatizada na intensidade do desejo pelo esquecimento e na busca pela libertação emocional.

Aquilo que enfatiza o início, o meio e o fim de uma relação é caracterizado em “me encontrar” pela escolha de uma jornada de autodescoberta, buscando encontrar-se verdadeiramente em um espaço de independência e autoafirmação. A sensação que permeia tudo isso é a de estarmos diante de uma história em que a paisagem sonora desempenha um papel crucial, envolvendo-nos nos sentimentos e no desfecho dessa narrativa que mesmo simples se tornou tão interessante.

Selo: Balaclava Records
Formato: LP
Gênero: Rock / Shoegaze, Música Brasileira
Brinatti

Graduando em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia e Sociologia, 27 anos. É editor e repórter do Aquele Tuim, em que faz parte das curadorias de MPB, Pós-MPB, Música Brasileira e Pop.

Postagem Anterior Próxima Postagem