Crítica | Deeper Well


★★

A conversão de Kacey do provocativo star-crossed para o contido Deeper Well foi entediante e despretensiosa.

Após ter dado passos importantes para a superação de seu divórcio na obra audiovisual star-crossed, lançada há três anos, Kacey Musgraves conseguiu caminhar longe o suficiente de seu passado para finalmente contemplar os antigos capítulos escritos de sua vida, no momento presente, com um par de olhos diferente daqueles cheios de lágrimas e sangue que um dia carregou consigo. A fúria e angústia que sentia, igual o fogo de uma fogueira, se extinguiram conforme a lenha foi consumida. E em seu último lançamento, Deeper Well, Kacey encerra essa narrativa e abre caminho até um ponto de vista mais admirável sobre relações sociais, a vida e suas peculiaridades.

Kacey, ao entrar no estúdio Electric Lady, diz ter trazido em sua companhia o odor de maconha, a fragrância de pizzas e o barulho incessante da cidade grande e descarregado tudo em suas produções, juntamente de Ian Fitchuk e seu colaborador de longa data, Daniel Tashian. Ela transformou tudo que a define não apenas enquanto artista, mas principalmente enquanto pessoa formada pela cultura estadunidense, em canções minimalistas de folk, reminiscentes daquelas enraizadas em suas raízes mais profundas. O seguimento desta proposta a proporcionou o espaço propício para esmiuçar todas as ideias desenvolvidas por ela para Deeper Well com propriedade, como as de religião (“The Architect”), a futilidade dos bens materiais e seu antônimo a felicidade (“Lonely Millionaire”) e a apreciação dos mais pequenos dos detalhes (“Dinner with Friends”). A escrita de Musgraves nunca esteve tão afiada e precisa quanto neste projeto. O pretexto de um álbum mais simples e direto, pautado no violão e sintetizadores delicados, serviu perfeitamente para que aproveitasse todo seu potencial enquanto compositora. No entanto, por mais que ganhe o interesse do público com a discussão excitante destes temas inusitados, o perde rapidamente pela sonoridade monótona do disco.

Infelizmente, a criatividade de Daniel, Fitchuk e Musgraves se esvai em instantes. A ideia equivocada que criaram em suas cabeças sobre o que é minimalismo os fizeram desenvolver pouco a sonoridade da obra. Esse conceito diz respeito a um movimento artístico que busca fazer o uso apenas do necessário para a criação de trabalhos caprichados, o que, com certeza, não é o caso de Deeper Well. Na verdade, é quase o completo oposto. O álbum carece de desenvolvimento em sua base. Há momentos em que não há nenhuma diferenciação de uma faixa para outra, dando a impressão de que estamos ouvindo uma sequência de versões menos inspiradas de uma só canção. E não ajuda em nada o fato da Kacey manter uma performance vocal monótona o tempo todo. É verdade que a cantora possui uma voz distinta, que se destaca por ser suave e tenra, porém, essa característica, que a fez uma intérprete tão única no seu meio, se evidenciou apenas como uma fraqueza neste caso. E o acúmulo de tantos defeitos fazem o sucessor de star-crossed extremamente maçante de se ouvir do início ao fim.

A conversão de Kacey do provocativo star-crossed para o contido Deeper Well foi mais entediante e despretensiosa do que fascinante, e isso, para a cantora, não poderia ter sido pior, pois a afasta ainda mais do bom direcionamento que estava seguindo com o lançamento de Golden Hour, seu melhor e mais conciso álbum lançado até o momento. Espero que num futuro próximo volte a seguir pelo caminho certo e nos entregue outros momentos espetaculares como “Follow Your Arrow”, “Butterflies” ou “Oh, What a World”, pois odiaria demais ter de ouvir algo assim novamente vindo da cantora.

Selo: Interscope
Formato: LP
Gênero: Folk / Pop, Singer-Songwriter, Country, Americana
Bruno do Nascimento

Sou Bruno, tenho 18 anos, sou autista, paraibano, escritor e estou terminando o Ensino Médio. Amo escrever e comentar sobre música onde passo, inclusive no Aquele Tuim, em que faço parte da curadoria de Música Brasileira e Pop.

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