Discos para celebrar o orgulho LGBTQIA+



Selecionamos alguns discos de música alternativa e experimental com foco em perspectivas LGBTQIA+.

Em comemoração ao dia do orgulho LGBTQIA+, selecionamos algumas obras musicais que impactaram e seguem impactando a sociedade e suas normas. Confira:





1967
The Velvet Underground & Nico
The Velvet Underground & Nico

Não só a obviedade de Lou Reed ser um homem bissexual inclui este álbum na lista, mas a vivência também é muito importante. Quando a banda se reuniu para criar o álbum, com patrocínio e incentivo de Andy Warhol — um homem gay — eles frequentavam o estúdio artístico de Andy, chamado Factory, que na época possuía todo o tipo de pessoas e muitas delas sendo parte da comunidade LGBTQIA+. Dessa forma, ao percorrermos as mensagens e letras do disco, se torna óbvio que as canções remetem à vivência de pessoas LGBTQIA+ daquela época, porém, não aquelas que estavam bem, aquelas que poderiam expressar sua sexualidade, mas sim, os viciados, os ignorados, os artistas, os abandonados, os sem perspectiva, sem futuro. Um disco duro e difícil de ouvir, mas extremamente importante.  Tiago Araujo





1972
The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars
David Bowie

É até difícil falar sobre David Bowie, visto que — tudo o que poderia se dizer sobre ele provavelmente já foi dito, e sobre Ziggy Stardust, mais ainda. Contudo, o lançamento desse álbum, a turnê envolvida e todo o significado estético dessa fase de Bowie é tão importante para a estética queer em geral que não vale a pena deixar o disco de fora da lista. A maioria das letras são emocionantes, e eu destaco, especialmente: “Five Years”, “Hang on to Yourself” e “Rock n’ Roll Suicide”.

“I saw boys, toys, electric irons and TV's / [...] / And all the fat, skinny people / And all the tall, short people / And all the nobody people / And all the somebody people / I never thought I'd need so many people”

— Tiago Araujo





1983
Colour By Numbers
Culture Club

O segundo álbum da banda britânica, Colour By Numbers, é o mais popular de toda a sua carreira. A banda possui uma importância significativa para a comunidade LGBTQIA+ devido ao vocalista Boy George, um ícone queer dos anos 80, ser conhecido por seu estilo que desafiava as normas de masculinidade e feminilidade da época. Colour By Numbers teve um grande impacto cultural, principalmente por proporcionar maior visibilidade queer no mainstream, contribuindo para a pavimentação do caminho em direção à diversidade e inclusão na indústria musical.  Vit





1984
The Smiths
The Smiths

The Smiths é o caso de um membro da comunidade que não queríamos, mas temos. Morrissey é um artista que uma vez se declarou “humasexual” – para dizer que se sente atraído por todos os tipos de seres humanos. Desse modo, apesar de suas péssimas ideologias políticas hoje, é inevitável falar sobre sua obra, até porque, para os anos 80, não havia cantores de pós-punk, ou de música independente em geral, que não tentassem se apresentar como Morrissey — essa influência chega até o Brasil, a maior, e mais óbvia delas, sendo o cantor Renato Russo, que também era bissexual. Ele foi uma figura muito importante para a comunidade e basta conferir as letras daquele primeiro álbum para perceber o impacto político e sexual que causou na época de seu lançamento. Algumas interpretações interessantes de críticos contemporâneos levam até a uma certa visão de possíveis comentários acerca de transsexualidade nas músicas “Pretty Girls Make Graves” e “What Difference Does it Make?”.  Tiago Araujo





1986
World Of Echo
Arthur Russell

Em seu último álbum em vida, Arthur Russell parece desmembrar uma série de pensamentos que rodearam sua vivência durante a gravação do registro, que ocorreu de 1980 a 1986 — quando foi lançado. E mesmo que viesse a falecer em 1992, em decorrência do vírus da AIDS, Arthur deixou sua marca em produzir arte a partir de uma decomposição do tradicional, é uma das raras vezes em que podemos acessar o subconsciente de um artista e ver o que há de especial lá dentro. — Matheus José





2004
Fabulous Muscles
Xiu Xiu

No que geralmente está associado com “música queer”, a banda Xiu Xiu é provavelmente uma das mais diferentes e assustadoras. Suas temáticas LGBTQIA+ são explícitas e, em Fabulous Muscles, isso é elevado à décima potência em diversas músicas. Contudo, como dito anteriormente, é uma banda de temáticas assustadoras e de uma sonoridade igualmente devastadora, muitas vezes você vai escutar o que não queria, ou achava que não precisava, a dissonância, sempre presente, também pode causar sentimentos nada bons. Mas quanto à experiência do álbum? É simplesmente essencial.  Tiago Araujo





2005
Illinois
Sufjan Stevens

Talvez uma escolha controversa dentro dessa lista, já que Sufjan Stevens nunca se declarou abertamente como parte da comunidade — embora não faltem relatos de que ele provavelmente seja bissexual, tanto em suas letras quanto de pessoas que aparecem de vez em quando. Porém, não é por isso que é possível ou razoável deixá-lo de fora, pois ele é certamente um dos compositores mais interessantes para falar de temas queer, principalmente de uma perspectiva menos explícita e mais poética, quase transcendental. Não precisa de muita pesquisa no Google para achar os famosos debates: “Is Sufjan Stevens talking about God or Gays?”. Essa dualidade é fantástica, a forma das letras de Sufjan é incrível, vai ser um liricista para ser analisado mesmo após muitos anos. Em Illinois obviamente não é diferente — essas temáticas estão presentes em todo o disco, por exemplo, em “John Wayne Gacy, Jr.”, “Casimir Pulaski Day”, “The Predatory Wasp of the Palisades Is Out to Get Us!”... Isso para não dizer basicamente o álbum inteiro. Ouça e tente ver nas entrelinhas, algumas óbvias, outras nem tanto.  Tiago Araujo





2006
Routes Not Roots
K-S.H.E

A DJ, musicista, performer, ativista e dona da gravadora independente Comatonse Recordings, Terre Thaemlitz — também conhecida como K-S.H.E, possui desde o princípio muita relação com a comunidade LGBTQIA+. Para além da música, ela é conhecida especialmente no que tange a discussão das questões de gênero como uma notável ativista pelos direitos queer e trans. Em Routes Not Roots, ela traz toda a estética da deep house como uma declaração política, afinal, é um gênero extremamente popular para toda a comunidade e faz parte de uma subcultura underground há muitos anos. Seu disco é considerado por muitos como um dos grandes feitos da música house de todos os tempos.  Tiago Araujo





2010
The ArchAndroid
Janelle Monáe

Ao dizer ser uma pessoa queer, Janelle Monáe deu ainda mais sentido às suas obras. The ArchAndroid, de 2010, quando lançado, chamou a atenção por passar por uma linearidade narrativa postada na história de uma andróide, chamada Cindy Mayweather, que lutou em busca de igualdade e liberdade para seu povo. Entre inúmeros fragmentos líricos, nota-se o poder de Janelle em agregar realidade à sua arte. The ArchAndroid, hoje, pode ser visto como parte de um símbolo de como as pessoas LGBTQIA+ lutam para alcançar igualdade e liberdade, assim como Cindy. E Janelle, entre a realidade e a ficção, faz um excelente papel de mensageira. Os seus álbuns seguintes, The Electric Lady, Dirty Computer e The Age of Pleasure, procuram manter viva essa temática que ela apresentou no passado. Vemos, a partir disso, como Janelle representou seus mais distintos anseios como pessoa queer em diferentes projetos. The ArchAndroid, sua obra-prima, é apenas mais um exemplo de tudo o que ela já fez.  Matheus José





2015
PRODUCT
SOPHIE

Mais do que um nome transgressor e uma produtora de ponta, SOPHIE já pode ser considerada um artefato cultural. Essencial para as bases atuais da música pop e das experimentações eletrônicas, ela modelou e influenciou toda a cadeia criativa do que chamamos atualmente pelo termo guarda-chuva hyperpop. Em 2015, ela se tornou peça fundamental para a virada de chave da discografia de Charli XCX (com Vroom Vroom), mas também houve um momento decisivo na sua carreira: o PRODUCT. A compilação de oito músicas, seu primeiro trabalho mais extenso lançado oficialmente, demonstra a versatilidade e a impostação criativa da artista. Ilustrada por escorregadores aquáticos coloridos nas capas, as faixas se cruzam entre o mistério, a estranheza, a diversão e, até mesmo, a saudade; por meio dos sintetizadores ferozes, efeitos sonoros afiados e a diversidade vocal, que passa por nomes como GFOTY e Nabihah Igbal.  Felipe Ferreira





2017
Pajubá
Linn da Quebrada

Como um mar revolto, Pajubá destrincha cada sílaba e som circunstanciado pela poesia de protesto tomada pela verdade absoluta de Linn da Quebrada. Um álbum que expele vivência e manifesta, sobretudo, uma visão de sociedade que demarca os pensamentos, às vezes incômodos, de Linn da Quebrada. São texturas, palavras, sons e uma produção que parece não limitar a abordagem explícita que a artista usa para, de forma íngreme, transpor seus pensamentos. Linn canta, conta e contagia com a sua subversão pessoal e puramente única.  Matheus José





2017
Arca
Arca

Quando Björk encorajou Arca a usar seus vocais, a artista venezuelana provavelmente se viu diante de uma imensa quantidade de ideias para costurar em seu autointitulado registro de 2017. Mais do que impressionar, Arca soube trilhar um caminho que seria definitivo, e hoje, sua voz é a combustão de seus projetos mais característicos. É nesse trabalho, também, que a artista acompanhou sua transição até chegar a série KiCk i — um trajeto que serviu de inspiração para muitas pessoas, em especial, a comunidade trans que, atualmente, vê em Arca uma de suas representantes mais importantes.  Matheus José





2020
SAWAYAMA
Rina Sawayama

O álbum de estreia da cantora é repleto de mensagens de empoderamento e autoaceitação, contadas na perspectiva de uma mulher bissexual japonesa. Isso cria um ambiente inspirador para as pessoas LGBTQIA+, especialmente aquelas que podem se identificar com sua jornada. Além disso, Rina traz uma estreia divertida e diversificada em termos sonoros, criando um ambiente mais eclético e inclusivo.  Vit





2020
Set My Heart On Fire Immediately
Perfume Genius

Entre alguns dos relatos mais absurdos expostos por Mike Hadreas, como ameaças de morte ligadas à sua sexualidade, está a vez em que ele foi brutalmente espancado por um grupo de homens. A virilidade, ou a necessidade de ser masculino, muitas vezes o fazia pensar em como se comportar socialmente — nós LGBTQIA+ sabemos bem o que é isso. Desse peso jogado em suas costas surge Set My Heart On Fire Immediately, um álbum que, entre momentos delicados e tempestuosos, expõe o amor sem suas fragilidades.  Matheus José





2021
Ojunifé
Majur

Em seu primeiro álbum de estúdio, Majur narra o processo de redescoberta pessoal e artística por meio de visitas ao seu passado. Nesta coletânea de peças sobre amar a si mesmo, a ancestralidade afro e o amor são como uma arma de resistência.  Joe Luna





2022
Hawaira
La Cruz

Apelidado carinhosamente como “o reggaetoneiro gay”, Alfonso La Cruz, ou melhor La Cruz, rompe as estruturas que sustentam o reggaeton — gênero latino popularmente conhecido pela presença majoritária de figuras heterossexuais — através de canções que misturam referências latinas com música eletrônica para explicitamente falar sobre experiências emocionais e sexuais como homem gay.  Joe Luna





2023
Dog Dreams (개꿈)
Lucy Liyou

Lucy Liyou é um dos nomes mais interessantes da música experimental hoje em dia. Além de suas abordagens centradas na perspectiva de uma pessoa trans, seu último álbum, Dog Dreams (개꿈), é uma profunda persuasão de suas referências inusitadas. Ela não esconde sua habilidade de apontar para Mariah Carey enquanto também acena para filmes clássicos da Disney. Tudo isso é parte fixa da memória e dos anseios que Liyou imprime em sua melhor obra até hoje.  Matheus José
Aquele Tuim

experimente música.

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