Clássicos do Aquele Tuim | Good Morning Good Night (2004)



★★★★★

Em celebração de uma obra-prima não suficientemente conhecida dentro da música experimental, que repensa a própria categoria da música.

Centralizar movimentos artísticos é uma tarefa árdua, e vale pensar até o quanto ela ainda é útil mesmo, ou não. A EAI (improvisação electroacústica) — ou como ficou conhecido no Japão, onkyo — foi um movimento que surgiu dentro da música experimental a partir das músicas mais “extremas” dessa linha, como as cenas free jazz e improvisação livre do fim dos anos 60, e a música eletroacústica dos compositores contemporâneos. O radicalismo buscado pelo gênero, através da intenção de romper com as formas convencionais de criação musical, são notados em Good Morning Good Night desde o primeiro minuto e é muito provável que isso cause desconforto, ou afastamento imediato.

A gravadora Erstwhile, presente e ativa até os dias de hoje, foi a responsável por unir Sachiko M, Toshimaru Nakamura e Otomo Yoshihide para uma colaboração que resultaria no disco aqui analisado, artistas cujo histórico é dentro desses gêneros de música experimental. Sachiko M e Otomo Yoshihide foram de uma banda de noise chamada Ground-Zero, que possui um diálogo muito presente com bandas improvisação livre, além disso, tiveram outros projetos de EAI, Onkyo e também de Free-Jazz, enquanto Toshimaru Nakamura já era, nesse momento, um nome que trabalhava constantemente com o gênero Onkyo.

É interessante e estratégico aqui colocar o histórico do selo em que o disco foi lançado, e também os artistas que o compõem, porque é necessário desfazer essa ideia de um “amadorismo” presente no álbum, por mais absurdo que possa parecer que alguém tenha dito isso. Não é nem de longe algo amador, e o desconforto da experiência vem justamente de toda a complexidade que envolve esse minimalismo, pois apesar de não ter “quase nada”, é mais difícil de assimilar do que uma música que já é feita em torno de todas as convenções. estabelecido pela cultura de massa, principalmente americana, majoritariamente estadunidense — que é constantemente muito mais “preenchida” por seus produtores do que qualquer som que se ouve em Good Morning Good Night.

A exploração da música eletroacústica era uma descoberta dos instrumentos eletrônicos e uma tentativa de rompimento com as convenções da música clássica elitizada e completamente engessada dentro do que a Europa convencionou considerar como “música”. A EAI, que vem dessa mesma lógica, não poderia se fazer de forma diferente; Good Morning Good Night é uma forma de mostrar que existem outras formas de explorar a categoria da música. Seja pelo uso de sine waves, manipulação digital — ao vivo, pois, como se trata de uma improvisação, ela não foi corrigida, ou alterada da sua gravação ao seu lançamento — ou pela manipulação de vinis, o disco vai se construindo em torno dessa possibilidade de criar e atacar o ouvinte com novas texturas e possibilidades de se pensar a música.

Mas absurdo seria dizer que não existe debate em torno do questionamento se o que foi feito em Good Morning Good Night é mesmo música. Por mais válido que esse comentário possa ser a princípio, não deixa de obscurecer a característica normativa ocidentalizada da convencionalidade do que é uma “música”, do que realmente pode entrar nessa caixa, e ainda mais, um desejo muito infeliz de tornar tudo em algo industrial, como se houvesse realmente um modelo de fazer as coisas e eles precisam ser seguidos à risca.

Pior ainda seria eu querer provar que Sachiko M, Toshimaru Nakamura e Otomo Yoshihide aqui queriam se legitimar enquanto músicos, ou estavam sequer preocupados se as pessoas que ouvissem iriam considerar isso música legítima ou não. Claro que existe um ataque claro ao ouvinte convencional em todos esses 1h40 de disco (que já começa justamente no seu tempo de duração), mas o ataque é estético, é textural. Para começar, o álbum é criado sob uma nomenclatura comum, simples e cotidiana para todas as pessoas, dia, tarde, início da noite e noite. O que esses períodos do dia dizem a você? Com certeza algo, mesmo que seja “todo dia da minha vida eles acontecem”.

Mas o que essa música, e essas experimentações, em torno desses nomes, dizem a você? Nada! E como poderiam? Alguns pequenos barulhos e manipulações de texturas não podem dizer algo sobre o dia, sobre a tarde, ou sobre a noite… A menos, é claro, que a própria não-convenção, a retirada da simplicidade dos elementos cotidianos, tenha algo a dizer. Mas isso é presunção demais, afinal o que arte tem a dizer sobre qualquer coisa? No fim de cada vez que eu escuto Good Morning Good Night, só me vem à cabeça: “que perda de tempo". Eu tiro meus fones e vou dormir, amanhã é mais um dia.

Selo: Erstwhile
Formato: LP
Gênero: Experimental / EAI, Onkyo
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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