Clássicos do Aquele Tuim | Obaa Sima (1994)

★★★★

Em seu único trabalho solo, Ata Kak captura a gênese do hiplife numa rica obra que foi preservada graças à pirataria e aos entusiastas apaixonados por sua arte.

Persuadido de forma quase aleatória, Yaw Atta-Owusu se envolveu em projetos musicais ainda nos anos 80, sem qualquer aptidão além da própria vontade. Ao ser recrutado, mentiu saber tocar bateria, o que sequer fazia diferença dado o nível de amadorismo daqueles colegas que compartilhavam o sonho idílico de fazer música. Os fracassos sucessivos e o golpe militar foram combustível para sair de Kumasi, sua cidade natal no coração de Gana, em direção à Europa, terminando do outro lado do oceano, em Toronto. Munido de referências como Michael Jackson e Bee Gees, para além do próprio highlife ganês, agora também estava sob influência do emergente hip hop de Grandmaster Flash e outros nomes.

Em 1994, finalmente saiu seu trabalho solo Obaa Sima, sob a alcunha Ata Kak. Foram produzidas cerca de 50 fitas, e seus parentes em Gana presenteados com a maioria delas, ganhando também a incumbência de divulgá-las. Como esperado, caíram no ostracismo, até o etnomusicólogo Brian Shimkovitz encontrar uma cópia e compartilhar, em 2006, no seu blog; o lendário — e pirata — Awesome Tapes From Africa.

A história dessa fita é tão intrigante quanto seu conteúdo. Algumas letras ficam no limiar entre hilário e genial, como "Moma Yendodo", mas seria um pecado assimilar a música de Ata Kak como piada; é a representação palpável do indivíduo diaspórico em busca do horizonte de possibilidades que lhe foi prometido. Faixas como "Daa Nyinaa" apresentam composição instrumental familiar, mas a produção lo-fi em fusão às características étnicas e frenéticas do seu rap não falham em surpreender o ouvinte. Essa paisagem é um quebra-cabeça montado canção após canção; quanto mais as condições precárias se tornam patentes, mais floresce a natureza artística e inovadora da obra.

"Yemmpa Aba" é um desses trunfos, que encerra a fita em harmonia absoluta com "Bome Nnwom", encarregada de sintetizar a fundação do que se tornaria o hiplife algum tempo mais tarde. No seio do conflito e da dificuldade nasceu Yaw Atta-Owusu, mas o artista Ata Kak e sua magnum opus Obaa Sima são a pulsão de concepção que sobrepõe-se à miséria e transforma mácula em horizonte de concretudes.

Selo: Awesome Tapes From Africa
Formato: LP
Gênero: Música do Continente Africano / Hiplife, Hip House
Catarina de Oliveira

Irmã perdida da Kali Uchis, Catalina Guataúba, entre outras alcunhas. Nascida em 1997, desde tenra infância alimento a paixão por gêneros musicais afrodiaspóricos. Como crítica e redatora no Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Música Hispanófona e Música do Continente Africano.

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