Crítica | COWBOY CARTER



★★★★½

Em COWBOY CARTER, Beyoncé articula o aspecto fundamental da sua trilogia: o não-conformismo.

Ao desenhar o panorama das bases que formam a ideia de Estados Unidos, é mais que óbvio que o country e a figura do cowboy surjam como preponderantes. Para fora das fronteiras da América do Norte, esses elementos não penetraram no imaginário coletivo devido à sua historicidade, mas pelos adventos da indústria cultural — principalmente pelo investimento hollywoodiano nos filmes de faroeste e na propagação milimetricamente dosada de country nas estrelas e na música pop, já que o gênero por si sempre esteve formatado em uma dinâmica de mercado intrinsecamente nacional e tradicionalista. Por sua vez, essas obras também estão ao serviço político de impor vieses sobre o que significa ser e o que é aceito nessa esfera da cultura estadunidense, inclinando para distorções e supressões históricas profundas sobre a formação e participação de pessoas não-brancas e/ou imigrantes. Esse processo, sistematizado por décadas, resultou no seu percurso embranquecido e altamente alinhado ao conservadorismo reacionário ianque. Porém, encarar o oitavo álbum de Beyoncé como um ato de justiça histórica parte de uma visão unidimensional. Produtos culturais, por mais importantes e disruptivos que sejam, não são capazes de articular mudanças estruturais em sua individualidade — ela só virá a partir de uma conjuntura coletiva, multifatorial e, principalmente, anti-sistema.

COWBOY CARTER, na verdade, é uma manifestação da polissemia de Beyoncé enquanto artista consagrada. Ela é uma verdadeira texana, ou seja, o country faz parte das suas raízes e sua história — já que estamos tratando do estado que é a sede da proliferação da cultura faroeste nos Estados Unidos. Esse fato, isoladamente, já justificaria a existência do álbum, mas ela se finca em um incidente específico: a reação pública à sua performance de “Daddy Lessons” no palco do CMAs de 2017, ao lado do grupo The Chicks. Fomentado pelo racismo e por tudo o que aquela apresentação representava, o repúdio foi generalizado pela ala conservadora do país — tanto do público externo quanto dos nomes da indústria presentes na premiação. Esse momento deu origem à toda a trilogia, e é fundamental para entendermos a importância material da obra.

Nesse álbum, Beyoncé está mais afiada do que nunca, com uma habilidade de expressão vocal impressionante e dedicada a modelar processos de ressignificação, mais forte que em qualquer trabalho anterior. São quase 80 minutos de experiência sonora, dispostos entre 27 faixas que se fortalecem tanto pelo conjunto quanto por suas expressões individualizadas. Com poucos deslizes, o álbum flui de forma muito coesa e é construído por uma base sólida de grandes momentos: a recitação em ópera da ária “Caro Mio Ben” em “DAUGHTER”, o sample de “Aquecimento das Danadas”, do DJ Dede Mandrake, em “SPAGHETTII”, as parcerias com nomes como Linda Martell, Dolly Parton e Miley Cyrus e a miscelânea de outros gêneros são alguns desses exemplos. O agrupamento dessas outras expressões musicais é cristalizado em “SWEET ★ HONEY ★ BUCKIIN’”, uma faixa tripla produzida por Pharrell Williams que consegue agregar diversos elementos do country em uma forma de quase-caricatura, como o galopar do cavalo, as palmas e os “yee-hoos” de rodeio, com a energia dançante do jersey club, se comportando como uma irmã interiorana de “PURE/HONEY”.

Porém, as duas faixas iniciais já concatenam a verdadeira natureza do álbum. “AMERICAN REQUIIEM” não é apenas a melhor abertura da carreira de Beyoncé, mas seu título revela um aspecto: ele é uma referência direta aos réquiens, missas da Igreja Católica que oferece o repouso da alma de falecidos. É uma declaração clara de que essa obra se trata, acima de tudo, de morte e renascimento. Já em “BLACKBIIRD”, a artista regrava o clássico de The Beatles com quatro mulheres negras do country: Tanner Adell, Brittney Spencer, Tiera Kennedy e Reyna Roberts. A composição original de Paul McCartney e John Lennon reflete a repressão sofrida por mulheres negras na luta pelos direitos civis dos Estados Unidos, com uma mensagem clara de esperança, e o significado dessa conjectura de escolhas falam por si só.

Inicialmente planejado para ser lançado antes de RENAISSANCE (2022), é notável como Beyoncé permite que as diferenças entre os dois registros sejam totalmente perceptíveis, mas que, ao mesmo tempo, contesta que eles partem do mesmo denominador comum. COWBOY CARTER não é apenas sobre homenagear e fazer um trabalho exímio de resgate da história negligenciada da música country, mas é, principalmente, um espaço de não-conformismo com as fronteiras do gênero, criadas justamente para repelir esse tipo de manifestação. Como ela já proferiu no anúncio do disco, “este não é um álbum country. Este é um álbum de Beyoncé.”.

Selo: Parkwood
Formato: LP
Gênero: Country / Pop
Felipe

Graduando em Sistemas e Mídias Digitais, com ênfase em Audiovisual, e Estagiário de Imagem na Pinacoteca do Ceará. É editor do Aquele Tuim, contribuindo com a curadoria de Música do Continente Africano.

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