Clássicos do Aquele Tuim | The Miseducation of Lauryn Hill (1998)


★★★★★

The Miseducation of Lauryn Hill é uma força contínua na música. A obra máxima de Lauryn Hill categoriza o som como espaço de reivindicação e estabelece um diálogo único de referências.

Após o anúncio de que Lauryn Hill iria lançar seu – pasmem – segundo álbum de estúdio, após 26 anos de seu primeiro, decidi voltar para o final da década de 90, especificamente em 1998, para escutar uma obra que se mantém como atemporal e como o último álbum de uma artista feminina negra a ganhar o desejado “álbum do ano” no Grammy. Afinal, porque The Miseducation of Lauryn Hill é um álbum que nunca envelheceu ao longo dos anos e que até hoje é considerado um dos melhores álbuns da história? É o que vamos analisar a seguir.

O processo de uma obra se inicia a partir do aperfeiçoamento de técnica. Lauryn Hill foi um exemplo de persistência quando, em 1987, houve o Apollo Amature Night, no lendario e reconhecido teatro Apollo, berço de alguns dos maiores artistas dos Estados Unidos. Na noite do evento, aos 13 anos, Lauryn foi vaiada em cima do palco por conta de deslizes em seus vocais durante a apresentação. A crueldade de uma plateia com uma criança, que demonstrava talento desde cedo, não fez com que Lauryn desistisse de sua carreira. Ao longo de uma década, a vimos através das telas do cinema, como no filme Mudança de Hábito 2, em que seu papel foi destaque não só pela a atuação, mas também pelos os mesmos vocais que foram destratados precocemente anos antes, e por sua participação no clássico grupo Fugees, colecionando hits como “Killing Me Softly With His Song”, cover de Roberta Flack que ficou mundialmente conhecido pela versão dos Fugees, incrementada por batidas de hip hop. A faixa e outras não citadas possuem participações de Lauryn na produção e composição, de modo parecido com os álbuns The Score e Blunted On Reality.

Após uma turnê com o grupo Fugees, Lauryn começa a idealizar o seu primeiro projeto solo, que se tornaria seu aclamado primeiro álbum de estúdio. O processo de produção começa em 1997 com o suporte do grupo jamaicano New Ark, e com alguns integrantes da família Marley, pois ela possuía um relacionamento com Rohan Marley, filho de Bob Marley. Lauryn, ao longo do ano produziu, escreveu e preparou o álbum inteiramente sozinha, chegando a afirmar que houveram pedidos como os dos rappers RZA e Wyclef, o segundo é ex-namorado de Lauryn e que vai ser peça chave na linha narrativa da obra, e ambos foram recusados, essencialmente para não estarem nos créditos da obra. Finalmente, em 25 de agosto de 1998, a artista lança o que seria um divisor de águas em sua carreira e na história da música: The Miseducation Of Lauryn Hill.

Quem nunca amou? O amor é complicado de lidar, ele nos transforma da cabeça aos pés e quando estamos lidando com ele às vezes é impossível não sentir dor. Entretanto, o amor é plural, ou seja, não se estabelece apenas em uma relação amorosa entre um casal; é algo que vai além. Lauryn Hill navega em dores de relacionamentos passados, o amor materno e a autoconfiança nas primeiras faixas do trabalho. “Lost Ones” e “Ex-Factor” exploram o antigo relacionamento dela com Wyclef, enquanto “Lost Ones” traz uma perspectiva debochada e de alívio que se tem ao quebrar o silêncio interno, utilizando do rap com sintetizadores pesados para passar a sensação de que aquele recado é intensamente acompanhado de raiva, aspecto que a produção faz bom uso para harmonizar a forma com que ela quer reproduzir a mensagem ao ouvinte. “Ex-Factor” aborda a relação amorosa e extremamente conturbada com seu parceiro de grupo, Wyclef, que enquanto mantinham um relacionamento, ele próprio tinha um casamento com outra mulher. O jogo de palavras com o nome da faixa provindo do “fator X” e a palavra “ex”, provoca a perspectiva de um relacionamento em que não havia afeto por parte de um dos lados, mas quando o rompimento se aproximava, ele faria de tudo para que isso não acontecesse, como diz um trecho: “Tell me who I have to be / To get some reciprocity / See, no one loves you more than me / And no one ever will”. A faixa, composta por um R&B que apresenta um solo de guitarra, traz a sensação de aconchego.

Ao retornar ao amor, somos pegos pela convenção daquele que ocorre entre duas pessoas, a dramática tragédia de um homem e uma mulher. Mas o amor não é só isso, e sabemos que existem outros amores. O amor materno, por exemplo, é forte e atravessa barreiras entre o tangível e o intangível, e ser mãe te proporciona sentimentos que você nunca imaginaria ter novamente. “To Zion” é uma faixa dedicada ao, na época, recém nascido Zion, neto de Bob Marley. Na música, Lauryn abraça seu lado mais vulnerável e aborda como a alegria em ter um filho é maior do que a própria carreira musical, em um trecho, cita suas incertezas na gravidez e que, em algumas ocasiões, houve quem achasse que era uma decisão estúpida ter um filho no seu auge artístico: “I knew his life deserved a chance / But everybody told me to be smart / Look at your career, they said / Lauryn, baby use your head / But instead I chose to use my heart”. A canção ainda chama atenção por possuir a participação de Carlos Santana, aclamado guitarrista que Lauryn admirava quando criança, sendo uma faixa significativa e voltada para o lado mais pessoal e afetivo da rapper.

Ao final de algumas peças, pode-se notar uma história ambientada numa sala de aula, onde o professor conversa com seus alunos sobre o amor, o que define o amor para homens e mulheres, e também como o amor é diferente para pessoas negras. Em um trecho, o professor pede para um de seus alunos dizer o que significa o amor para uma pessoa negra e o aluno cita: “Vontade de fazer tudo por aquela pessoa”. É como se Lauryn quisesse que aprendêssemos algo sobre o amor nesses intervalos, enquanto prepara terreno para as músicas a seguir — uma espécie de história paralela contida por significados fortes à medida que a artista buscava trazer tudo isso para sua realidade.

Entre o amor e a fama, a fama é o mais cruel dos benefícios, eles te dão o ouro, as joias e o dinheiro rapidamente. Entretanto, da mesma forma que você ganha, você também perde. “Superstar” é uma grande mensagem para os ricos pela fama, na canção, Lauryn aborda a ambição que as pessoas possuem quando estão no topo, gastam riquezas com futilidades e uma má gestão monetária que os levam à falência. “C’mon baby light my fire / Everything you drop is so tired / Music is supposed to inspire / How come we ain't gettin' no higher?”, cita em uma homenagem à faixa “Light My Fire”, do grupo The Doors, que faz referência a política de rappers – ou MCs – em lançarem seus trabalhos sem fazem jús ao sentido artístico da música, ou seja, para essas pessoas, a arte é apenas uma forma rápida de ganhar mais dinheiro. Outro ponto quase inusitado, é a influência de Bob Marley nas raízes do disco, não apenas pela participação da família de Marley no processo de produção, mas também pelas inspirações e referências do reggae e estilos jamaicanos. “Forgive Them Father” é uma interpretação de Lauryn Hill da clássica “Concrete Jungle”, de Bob Marley. A guitarra que preenche a canção é tocada pelo filho de Bob, Julian Marley, sendo uma grata surpresa. Lauryn, ainda, exibe, em certos momentos, vocais que se assemelham ao estilismo do reggae.

The Miseducation of Lauryn Hill é um clássico que não só resistiu ao tempo como parte de seu cenário, possui, sobretudo, letras que ultrapassam o presente e que se expandem para o futuro; Lauryn não teve medo de construir uma narrativa que pareça simples. A construção temática ao longo das 16 faixas consegue transmitir a persuasão de temas que ultrapassam os limites pessoais, constatando problemas sociais que acontecem e persistem até os dias de hoje. Produzir, compor, idealizar e preparar um álbum sozinha foi, de fato, um dos grandes acertos de Lauryn, como se ela realmente colocasse tudo em seu devido lugar, amarrado perfeitamente e sem falhas aparentes. A opulente versatilidade entre o rap, o soul e o hip hop fazem com que a obra não tenha músicas feitas somente para preencher espaços vazios. Essa intercalação de gêneros e versões calmas, agitadas e melódicas dos vocais da artista tem como resultado faixas com sensações diferentes que partem de um mesmo princípio. O instinto máximo que restabelece a conexão do álbum com o ouvinte é a sensação de atmosfera que ele proporciona, como se estivéssemos caminhando pelo Brooklyn ouvindo os clássicos de Bob Marley, olhando para suas casas antigas e notando como uma sociedade, que apesar de estar à beira dos privilégios norte-americanos, constroi uma cultura fora do eixo da branquitude nos Estados Unidos de maneira a despertar um sentido de proximidade único. Elementos de reggae, hip hop, soul, R&B e R&B contemporâneo moldaram este trabalho para ser o precursor do gênero chamado neo-soul, no qual artistas como Yaya Bey trabalham atualmente — sendo esse, outro método visível de conexão.

É aí que entramos num legado visto por muitos como uma verdadeira constatação das problemáticas que se instauram na música. Em 1999, Lauryn consagra sua obra com a tão desejada categoria de Álbum do Ano, entregue pelas mãos de Whitney Houston. A obra foi a mais premiada da noite naquela edição, entretanto, Lauryn foi a última artista feminina negra a ganhar a categoria desde então. Após 26 anos, ela ainda mantém esse infeliz e problemático marco. Lauryn Hill ser a última mulher negra a ganhar a categoria principal do Grammy demonstra o esforço que mulheres negras têm que fazer para garantir espaços dentro dessas premiações, mesmo após diversas artistas como Janelle Monáe, Beyoncé e SZA se consagrarem com projetos considerados extremamente importantes em seus respectivos anos de lançamento e que foram indicados a premiação. The Miseducation of Lauryn Hill continua influenciando artistas a persistirem em suas metas, e que mesmo se não possuísse grandes prêmios, que não definem méritos ou qualidades, ainda assim seria um álbum à frente de sua própria época, à frente de qualquer bancada de votantes.

Selo: Ruffhouse Records
Formato: LP
Gênero: R&B / Pop, Hip Hop, Neo-Soul, R&B Contemporâneo
Lucas Melo

Estudante de jornalismo, 18 anos. Amante da música e da cultura pop desde da infância. É crítico do Aquele Tuim, em que faço parte da curadorias de R&B e Soul.

Postagem Anterior Próxima Postagem