Crítica | Maquillada En La Cama


★★★★½

Uma viagem no tempo extravagante, Maquillada En La Cama resgata o melhor do electro-disco dos anos 80.

No início da década, o resgate da música disco dominou a música pop. Isso se baseava, na maioria das vezes, no uso do nu-disco, estilo que trazia abordagem mais moderna do ritmo dance que teve seu auge nos anos 70, adaptando a sua instrumentação original para um contexto EDM. Com os artistas virando seu olhar a esse gênero, outros subgêneros também marcaram presença na discografia de diversos cantores, no entanto, dificilmente havia algum nome que buscasse se aprofundar muito em alguma vertente além do nu-disco.

Apesar de ainda underground, Juliana Gattas é uma das poucas artistas pop surgidas nos últimos anos que busca explorar fortemente alguma abordagem da música disco que vá contra a maré do mainstream atual, nesse caso, se aventurando no electro-disco em canções eletrizantes que trazem consigo os melhores aspectos do subgênero.

A introdução “Borracha En Un Baño Ajeno” é marcada por atmosfera futurista e que remete ao espaço hipnotizante. Se seus sequenciadores, teclados e sintetizadores já são responsáveis por trazer essa característica arrebatadora, os instrumentos orgânicos tradicionais da música disco, que se mantém aqui a partir da orquestra, são usados também para potencializar essa energia. Na canção, o violino soa como algo vindo da trilha sonora de algum filme sci-fi dos anos 80 e, tendo conhecimento de que o space disco, uma das diversas vertentes dentro do electro-disco, surgiu alinhada ao crescimento desse gênero de cinema no período, Juliana Gattas cumpre excelentemente a proposta de capturar a essência do ritmo.

“Lejos del Fuego”, além de contar com o gancho mais envolvente do registro, fascina em sua construção por apresentar, junto a toques eletrônicos, influências deleitáveis da música latina. “Un Taxi al Infierno” é uma finalização que traz os aspectos mais cativantes do HI-NRG ao extremo: a instrumentação, completamente eletrônica e altamente energética, dita a vez dos arranjos que saltam os fones de ouvido e o alto falante de onde quer você esteja ouvindo.

Apesar de primariamente ser um álbum que busca fazer a exploração do electro-disco, outros ritmos adjacentes à música disco também são encontrados em vários de seus momentos, os quais às vezes são responsáveis por grandes destaques. “La Casa Del Amor Nocturno” é um funky house que consegue trazer seus grooves funk de maneira arrebatadora a partir de produção que opera com elementos excêntricos, modulados para apresentar som funky que resulta em um ritmo ímpar, distante de quaisquer classificação. “Miro Hacia El Cielo”, por sua vez, se aproxima mais do R&B que o dance, com seu synth-funk com toques de soul. A faixa se destaca principalmente pela performance apaixonante da cantora, embora o aspecto sofisticado e o tom romântico, entregue com mais força em seu final, através dos teclados e saxofone, também seja uma qualidade notável na faixa.

Penso que o único momento de fato fraco do projeto é “Emocionantemente Tuya”, um synthpop mesclado com new wave que tem êxito em ser fiel a algumas das principais características das músicas do estilo nos anos 80, mas que, seu tom altamente adocicado, é um pouco enjoativo. Fora isso, Maquillada En La Cama é um resgate da música dance oitentista fenomenal, que explora abordagens portentosas com o electro-disco.

Selo: Sony Music Argentina
Formato: LP
Gênero: Pop / Dance-Pop, Synthpop, Electro-Disco
Davi Bittencourt

Davi Bittencourt, nascido na capital do Rio de Janeiro em 2006, estudante de direito, contribuo como redator para os sites Aquele Tuim e SoundX. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Música do Leste e Sudeste Asiático, Pop e R&B.

Postagem Anterior Próxima Postagem