Crítica | PRISCILLA


½

Nem mesmo o oportunismo que sempre impulsionou a música pop pode tornar PRISCILLA genuína nas suas explorações. Seu novo álbum é fajuto e puramente vazio de significado. 

Há um oportunismo muito interessante na música pop, em que muitos artistas captam abordagens pertencentes a outros cenários, e fazem delas parte indissociável de muitas das mudanças bruscas que vemos espalhar-se nas chamadas “eras”. PRISCILLA, assim como outros nomes do apelidado “novo pop nacional”, é movida pelo oportunismo.

A diferença, porém, é que o disco PRISCILLA, que segue o novo nome artístico da ex-Alcântara, tem seu oportunismo sobreposto a uma abordagem descarada de reinvenção e falsa evolução. Ela se aproveita de uma estética suja (que aqui é feita para parecer suja, embora não seja) como forma de provar sua rebelião contra os costumes (protestantes) que abraçou quando era uma menina inocente. É uma liga que não funciona. Não é genuíno e está longe de parecer decente.

“QUER DANÇAR”, em parceria com Bonde do Tigrão, impõe, sem nenhuma sutileza, o uso descartável do funk e de elementos eletrônicos como meio de liberar toda sua suposta fúria para o mundo ao qual pertenceu (a igreja). É problemático. Se a apropriação cultural não tivesse se tornado um assunto com pouca virtuosidade hoje em dia, essa música seria um bom exemplo disso, assim como “FORA DA LEI”, em que ela canta: “Nessa vida bandida eu encontrei meu lugar”. Que vida bandida? Pintar o cabelo de ruivo e descolorir as sobrancelhas?

Mas nenhum elemento é tão apelativo quanto a reimaginação — para não dizer referência, pois imagino que ela sequer sabe da arte que existe nisso — do ballroom, com vários “cunty” sendo repetidos no pré-refrão. Pabllo Vittar até consegue ajudá-la com seu conhecimento justo e adequado da área, mas a presença da drag aqui pode ser bastante questionável...

Outra coisa que pode ser questionável são as semelhanças, tanto visuais quanto musicais, com a já consagrada obra de ROSALÍA, MOTOMAMI. “DOCE VENENO (AITOHEIWA) e “HIGH” são, em dose dupla, a referência mais espúria de todas. Mas não sejamos injustos: a música não surge do zero. Não há nada nesse mundo que não seja resultado de um processo já existente nas artes. Mas, considerando o oportunismo citado e as próprias evidências de PRISCILLA em navegar nas tendências, como fez com o disco/dance em Você Aprendeu A Amar?, de 2021, fica claro que há uma extensão do “copiar mas não fazer igual”.

O restante do álbum se divide em recomposição de sonoridades e abordagens confusas — cujo esforço vocal muitas vezes é contrastante com o som —, como a suposta bossa nova em “BOSSA (feat. Péricles)”, olha que criativo. Já “SINAL VERDE” parece um retorno ao culto; é tanta gritaria e adoração que deixa qualquer um atordoado. E o mais anedótico dessa insistência na mudança e no desejo de provar seu valor é que PRISCILLA nunca o fará de vez. E isso é triste, porque ela quer que acreditemos fielmente nesta sua nova fase, custe o que custar.

Selo: Sony Music Brasil
Formato: LP
Gênero: Pop
Matheus José

Graduando em Letras, 23 anos. No Aquele Tuim, faço parte das curadorias de Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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