
★★★★
Os temas que são abordados ao longo do terceiro álbum de estúdio de Maria BC, Marathon, parecem fluir mais como resultado de uma pilha de pensamentos ao ar do que como um processo meticulosamente pensado e calculado para atingir algum efeito de reprodução fácil. E, embora tenha dito que buscou focar na composição em primeiro plano, ao invés da produção em si, no contexto artístico de Maria, esta se revela uma escolha que chama atenção sobretudo por, apesar de conter uma essência parecida, ser estritamente diferente do disco anterior, Spike Field, de 2023.
Os acordes – e a própria voz – funcionam como alicerces que remetem à sua obra quase que automaticamente: carregam a essência folk moderna, um tanto perturbada, que Maria parece sempre querer incrementar com algo que vá além das marcas conhecidas do gênero. Aqui, por exemplo, há uma ruma de texturas ásperas, uma mistura densa entre o orgânico (instrumentos bastante reconhecíveis, que apontam principalmente nos instantes acústicos) e o sintético (ruídos, batidas e arranjos que beiram o estado de dissonância), que surgem de modo a acentuar o tom pontudo de suas composições. “Porcelain angel watching from the doorway / Crying, ‘You can’t go home again’”, canta na faixa de abertura, enquanto tudo parece ruir ao seu redor e os acordes se repetem, no fim, como trombetas do apocalipse.
A todo instante, dá a impressão de que essas escolhas mais profundas – e de diálogo temático entre o folk e as peculiaridades artísticas mantidas em cada microssegundo de música aqui – vêm para apresentar, a partir de uma eminência de cuidado e perdição, um aviso final: a falta de cuidado com a natureza, a urgência climática, o tempo e o éter de tudo isso influenciando nossas relações e modo de vida. Por isso, faixas como “Peacemaking” fluem com certa delicadeza de sentido que desperta, apesar de tudo, um calor emocional, diferentemente de “Port Authority” e “The Sound”, cujo design de som parece esfriar aquilo que antes era quente, como se nenhuma previsão do tempo pudesse prever o humor contido nessas músicas que se autodesafiam.
Não chega a ser um registro de ruptura: lembre-se de que os vocais de Maria estão aqui como uma casa aberta para receber um completo estranho, como deixa tatável em “Sabotage”, adornada por uma serenidade que queima ao tocar a pele, com uma demonstração vocal tão sensível que compreende uma ternura angelical que só faz sentido pelas mãos de Maria e pela repetição das notas sustentando a diferença de sua entoação. É um dos momentos mais especiais e que desacelera a maratona buscada aqui, seja no sentido de reunir seus temas ou de provocar reflexões a partir deles e de sua estética que, a cada novo disco, pressupõe de infinitas maneiras construir algo intimamente seu.
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Selo: Sacred Bones
Formato: LP
Gênero: Folk / Cantor-compositor