Cartão de Visita: DJ Arana


Um guia pelos discos essenciais de um dos nomes mais interessantes do funk paulista.

É difícil comparar o DJ Arana com qualquer fenômeno recente na música brasileira. Ele poderia estar para o funk o que Raffa Moreira esteve para o trap, mas ainda assim seria diferente, pois a forma que Arana produz se distingue da de Raffa, suas idades e o sucesso que conquistaram também é bastante distinta. E é justamente por esse conjunto de distinções, que DJ Arana pode corresponder ao termo "diferenciado" como ninguém. E hoje, iremos percorrer as suas 5 obras essenciais.



Rock Pesado (2021)



Em meados de 2021, o beat bruxaria ainda nem era bruxaria. Talvez fosse, mas de forma embrionária. Naquele momento, o funk paulista explodiu com as produções de bolso, impulsionado pelo contexto DIY da pandemia, que fez com que milhões de jovens ficassem trancados em seus quartos, produzindo barulhos que, mais tarde, se transformariam em música. DJ Arana foi um deles.

Em seu álbum de estreia, está presente tudo o que deu forma ao funk paulista na década de 2020 até agora, e é nítido que pra isso ele precisou recorrer a marcas historicamente comuns ao gênero, como o canto árabe, beats ruidosos, o som automotivo – herdeiro direto dos rachas de som –, unindo tudo isso à sua produção seca, que aposta em acapellas que os DJs mais populares jamais ousariam usar e em beats caseiros, às vezes simples demais, porém sempre barulhentos, repetitivos, com elementos definidos pela alta reprodução das batidas características do funk.

Era como se, por meio dessa batida, ele criasse centenas de microbatidas, com diferentes melodias e estéticas, encaixando-as em suas acapellas fora de série. Foi desse processo que surgiu um dos maiores hits de sua carreira, e daquele ano: “AQUELA MINA DE VERMELHO”. A música é o puro suco do automotivo, com um beat mais alto que o normal, que alterna o tempo da clave com berimbau, criando um som sintético, porém viciante e capaz de ser reconhecido a quilômetros de distância. É o marco zero de muita coisa.



EU SOU O MAGO: Á ORIGEM (2022)



Não demorou para que DJ Arana se tornasse conhecido em todo o estado de São Paulo, das periferias da capital às periferias do interior. Sua consolidação como um dos principais nomes à frente do funk paulista veio com o EP EU SOU O MAGO: Á ORIGEM, cuja alcunha “eu sou o mago” logo se tornaria uma das principais definições de seu trabalho que, a essa altura, já ajudava a moldar o bruxaria, do imagético do horror a uma estética cada vez mais experimental.

O EP surge com sirenes e barulhos estranhos que ditam a ambientação assustadora da metrópole e, claro, uma vocalização fantasmagórica de canto árabe. Na sequência, “MAGIA 1”, vocais emprestados da eletrônica de rave começam a se misturar a uma produção que aposta em poucos elementos – apenas uma batida aguda e duas acapellas –, como se antecipasse o minimalismo que, anos mais tarde, ele iria explorar em M.B.D.T.. O grande feito de EU SOU O MAGO: Á ORIGEM é justamente o distanciamento de Arana do automotivo padrão que vinha propondo até então.

É como se, aqui, ele de fato quisesse propor uma narrativa de surgimento. Por esse motivo, apela à nostalgia em “TU QUER DA ENTÃO DÁ – PASSINHO DO ROMANO DO MAGO”, que retorna a 2014 sem se desvincular da atualidade nem daquilo que ele propõe como modernização do gênero, ao utilizar a acapella de MC Pikachu. A mesma ideia de nostalgia reaparece na sequência final, “BERIMBAU DO MAGO”, e na clássica “VIOLINO DAS TREVAS ENVOCADO DO AGUDO”, faixa que testa algumas das possibilidades mais enlouquecedoras do que pode ser considerado um braço do tuim.



Carreira Solo (2022)



No mesmo ano de EU SOU O MAGO: Á ORIGEM, era lançado Carreira Solo. É difícil tentar resumir tudo o que esse disco representa como um produto que contém não só o tom de renovação que o DJ causou e continua causando na cena, mas também a força com que ele construiu tudo isso entre caixas de ruído seco, sirenes, batidas assombrosas, canto árabe, risadas fantasmagóricas, tons minimalistas e samples vocais que funcionam como um verdadeiro elo entre todas as melhores características que ele tem como compositor.

É o seu melhor trabalho porque soube conciliar o caráter de vanguarda do funk – e algumas ideias de composição que mais tarde se tornaram essenciais em qualquer lançamento do gênero, especialmente no beat bruxaria – e impor noções novas de uso das acapellas. Antes, havia uma rigidez por parte dos DJs e produtores em pegar MCs aleatórios, principalmente os que tinham acapellas disponíveis no YouTube ou Soundcloud. Arana meio que passou a levar a fundo a roubofonia neste sentido, pois não media esforços para subtrair áudios e colocar em suas músicas de acordo com o viés temático de suas produções tão absurdas, enigmáticas e perturbadas, que seria difícil de imaginar um MC mainstream, por exemplo, colaborando de livre e espontânea vontade.

Claro que o sucesso do DJ mudou isso, mas o cerne dessa mudança surgiu aqui, justamente por um fator: o desprendimento. É certo que anos mais tarde, Arana fosse surgir nas redes sociais criticando o viés cada vez mais experimental do funk, pra ele reduzido a ruídos. Mais tarde, também, ele viria a colaborar com um DJ que foi alvo da sua crítica: o d.silvestre. Apesar de diferentes, eles têm em comum uma visão dub do funk, com beats que só funcionam pois partem de espaços, atmosféricos, mínimos e simultaneamente complexos na forma como são encaixados nas músicas. Essa técnica, esse meio, é usado aos montes aqui, principalmente para dar sentido a experiência de temor, apocalipse, a ida ao submundo, nos bailes.



Rock Pesado 2 (2023)



Rock Pesado 2 é o maior empreendimento da carreira do DJ Arana, isto é, é o seu maior trabalho – em duração mesmo – e que também exigiu uma quantidade abismal de samples, acapellas e sons que percorrem todos os maneirismos que ele mesmo criou na cena paulista. O mais interessante, é que grande parte desses maneirismos ainda persistem, é o fato de associar o funk e sua turbulência estética com o rock.

Neste álbum, no entanto, o DJ configura esse “rock” que outros DJs seguem buscando fazer. O funk tem um poder de reprodutibilidade muito intenso, e é difícil na maioria das vezes saber onde um beat, uma acapella, o nome de algum elemento ou mesmo uma ideia surge. Por sorte, Rock Pesado 2 expressa, ao longo de toda sua duração, o surgimento de quase tudo que vem sendo usado, essencialmente no terreno do bruxaria.

São várias faixas revestidas por canto árabe, fragmentos vocais, violinos e instrumentos de música de concerto adaptados ao funk e suas distorções no melhor sentido possível. É como se aqui, Arana não se poupasse a nada, e por isso a mixagem – muito criticada na época – acaba sendo parte do fio narrativo que ele constrói. Rock é música, o rockismo sempre quis sair por cima de outros estilos. Vem um DJ de funk, com menos de 20 anos e cria um disco através do seu smartphone. Entra em diversas listas de melhores álbuns do ano de críticos gringos. Faz com que, no ano seguinte, centenas de DJs novos tentem lançar algo parecido. Viu só? Não é difícil entender que isso é mais rock que o próprio rock hoje em dia.



M.B.D.T (2025)



Ano passado, DJ Arana tinha lançado uma dezena de novos materiais e buscava, quase a todo custo, um novo hit. Seu desgaste era nítido. Sinais de um viral ali, e outro viral aqui. Mas nada de fato se concretizou em um longo período, que serviu de recomposição criativa. Ele passou meses no SoundCloud. Lançou dois discos lá. Fez uma parceria com Nelly Furtado num remix. Dropou “Festa do Pente e Rala” e começou a fazer barulho – você certamente ouviu parte da sua acapella por aí –, o que foi importante para mostrar quais caminhos Arana deveria seguir.

A música tem batidas mais esparsas. Foco apenas na percussão que recria a batida do funk sob os moldes do automotivo. Percussão e acapella. Foi assim que surgiu M.B.D.T. O disco reproduz, em todas as duas faixas, essa pegada minimalista – que no funk compreende o uso mínimo de elementos, e ainda assim consegue criar um som identificável. É diferente, mas é funk, em seu estado puro. Nessa jogada, Arana conseguiu o seu hit: “Senta Olhando Pra Mim”.

A faixa eleva o efeito causado pela percussão e pelo minimalismo a um nível tão viciante quanto fora do comum. Nada soa com isso no funk. Mais do que tudo, DJ Arana resolveu dar uma atenção ainda maior para a mixagem. É um combo de coisas até então inusitadas até mesmo para sua carreira. Outros momentos, como “Índio Mal”, soa justamente com o que ele fazia há alguns anos atrás. É uma mistura completa de entendimento, raízes, trabalho excepcional de produção e ritmo no funk.
Matheus José

Graduando em Letras, 25 anos. É editor do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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