
★★★★
Quando lançou Viewfinder, em 2024, Wendy Eisenberg projetava o quão instigante o tempo, a elasticidade da visão na interpretação das coisas e o peso de memórias contadas e recontadas têm na própria forma como vivemos a realidade, como projetamos as situações e como nossa cosmovisão nos coloca no meio disso tudo. Esses temas, tão complexos, parecem persuadir de maneiras diferentes em seu autointitulado, Wendy Eisenberg, lançado nesta sexta-feira santa.
O disco, assim como seus outros trabalhos, não conversa com nada além do que está inscrito nele mesmo. É interessante notar isso, pois, embora haja o peso claro de uma investida em gêneros que Eisenberg domina, como o folk, ele passa longe de ser apenas isso: um disco centrado num estilo, em suas formas, seus instrumentos e sua existência contida em corresponder ao que cada um desses elementos estabelece.
Por isso, momentos como “My Myth Dying”, tocado sobre violão polirrítmico e cheio de texturas de cordas, parecem saltar ao vento com sua expressão lírica que põe fim a devaneios de identidade, é um instante em que Eisenberg chuta o pau da barraca e compreende o que pode e não pode controlar. A música traz essa reflexão sem apelar para literalidades. O valor está tanto em seu som, cheio de ritmos lúdicos – começa com toquinhos tão confortantes –, quanto nos vocais que viajam por uma nuvem carregada de Sufjan Stevens, prestes a desabar. “Watching the hands move I’m hearing what I want to hear / Something to control, to feel the way I make it feel”, elu canta após uma das introduções instrumentais mais lindas desta década.
Em outros momentos, seu toque fica mais rígido, mais clássico. É o caso de “Another Lifetime Floats Away”, que caminha em direção a um country desajustado, concatenado por baterias tão familiares, pedal steel e uma sensação de viver a vida no interior. A maneira como canta, e a temática da faixa, se encaixa perfeitamente no meio desses elementos tradicionais citados, mas Eisenberg sabe como contrapor qualquer peso de tradicionalismo; basta olhar a letra: “Route 15, I-90, Route 2, I-91 / I’m 20, I’m driving, I’m having fun / A child was playing, let’s see what she’s done”. Esse tipo de diversão e estrutura simpática, por ser universal na criação de sensações, simpatizante de um sentimento que todes podem ter, passa longe da dureza que o country em si é.
Wendy Eisenberg é excelente por isso. Como disco, parte de lugares já estabelecidos, concretados, fixos. Mas é diferente, é feito por alguém que agora reconhece sua diferença, mas como sendo uma diferença que não é, de fato, diferente – distinta – e, por isso, neste momento de autodescoberta, Wendy Eisenberg resolve chamar seu disco de Wendy Eisenberg. É o que elu compreende como sempre foi e agora, de fato, é. E isso inclui suas habilidades de domínio de estilo como quase ninguém faz. Se uma de suas intenções era estampar e promover Wendy Eisenberg (o álbum) ao mundo, a melhor maneira de fazer isso certamente foi também mostrar Wendy Eisenberg (seu eu artista) ao mundo.
Selo: Joyful Noise
Formato: LP
Gênero: Folk / Cantor-compositor