
★
Tem sido um fenômeno engraçado acompanhar o que alguns críticos têm falado sobre grande parte dos lançamentos de 2026. A crítica mudou. Os críticos mudaram e, evidentemente, existe uma nova geração de críticos se formando nos jornais e revistas com ambientação online. Eu digo “engraçado” pois, longe de mim querer ditar o uso dos termos etc., é de fato divertido vê-los usar palavras, adjetivos, trazer argumentos e escrever coisas que beiram o delírio e a alucinação jornalística. No exemplo mais recente, vi uma crítica sobre esse novo álbum da RAYE começar dizendo que não há como classificá-lo quando se tem, nitidamente, o álbum de música pop mais padrão do mundo. Vi, pela milésima vez, chamarem isso de “experimental”... todos concordamos que as palavras estão perdendo o sentido, né?
E, para um disco cujo título é THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE., essa perda de sentido é ainda pior. A última coisa que há neste álbum é esperança. É um conjunto de músicas que causam ansiedade, histeria, choques, efeitos estroboscópicos mentais. São peças feitas de forma “cinematográfica” para se impor sobre tudo e todos, e dane-se se esse jeito usado por RAYE de criar passe pela mesma fórmula existente na música pop desde que o mundo é mundo, ela ainda assim será digna de inclassificação, embora Janelle Monáe por exemplo tivesse feito o mesmo, melhor e mil vezes menos convulsivante, nos anos 2010. É vertiginoso e reflete o quão somos esmagados pelo consumo rápido das coisas, pois não é possível que mesmo com a quantidade de arranjos aqui – criados na mesma perspectiva de LUX para soar maior do que pode ser – tudo ainda soe profundamente batido, esquecível e descartável. É o tipo de música que pode ser chamada de lixo não reciclável, uma vez coloca suas objeções e intenções épicas acima de qualquer naturalidade em construir ou compor algo cuja beleza, melodias ou ritmo funcionem como aliados de um conjunto completo, uma unicidade que faria não apenas sentido, como também ajustaria a longa duração e tornaria tudo menos forçado.
É cafona. O tipo de música que se encaixa naquele meme “direita quando fala em alta cultura” e é alguém tocando “November Rain” do Guns N’ Roses no violino. Se fosse um diretor de cinema, esse álbum seria o Christopher Nolan, e veja que engraçado: até Hans Zimmer marca presença aqui. Ele o faz para RAYE esfregar na cara das pessoas o quão erudita ela é, o quão geniais são suas músicas adornadas por música de concerto. Música de concerto sem alma, diga-se de passagem, a música de concerto mais sem graça e sem emoção já criada. E tudo bem, ela sabe que Rolling Stone, The Independent, NME, DIY e outras revistas irão tratar este como sendo o disco mais importante do século XXI – o que fazem toda semana com algum artista ou disco diferente. Pouco importa se o uso da música aqui seja próximo de um uso reacionário, pois tudo é muito expansivo e épico demais para alguém que está fazendo a música mais fácil da terra enquanto se leva a sério demais; e, por isso, pode passar à frente dos outros, em ar de superioridade musical. É “melhor” por colocar fusão de jazz com pop numa faixa cantada sem jeito, gerando apenas um apelo divertido por seguir por uma rapidez de versos que se tornou algo próximo de uma identidade vocal boba e vista como grande coisa em momentos como “I Hate The Way I Look Today.” e mesmo no viral “WHERE IS MY HUSBAND!”. É muito mau gosto.
Quando foge um pouco da expansividade narrativa e temática de THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE., RAYE acaba apelando para outros maneirismos, como fragmentos vocais, áudios pré-gravados de familiares, mensagens motivacionais junto de batidas eletrônicas que parecem evaporar no ar de tão redutíveis, como na péssima “Life Boat.”. Noutras faixas, como “Happier Times Ahead.”, RAYE soa apenas como Christina Aguilera tentando provar maturidade retrô em “Candyman”. Veja como as referências não são das melhores. Gostaria muito de concluir este texto citando ao menos uma faixa positiva, minimamente que fosse, dentre as 17, mas não consigo. Ou porque esqueci, nas mais de duas vezes que ouvi o álbum, ou porque nada, absolutamente nada disso é ruim apenas por ser ruim. É objetivo. Mencionei as críticas e revistas por isso mesmo. Não há inocência, assim como não há esperança.
Selo: Human Re Sources
Formato: LP
Gênero: Pop