Crítica | MEMORIA, in blue


★★

Pouco se há informações sobre a reservada vida de Noah Guy, o que traz uma sensação de mistério e até incompreensão sobre a sua real intenção, mesmo que o artista esteja lançando pequenos projetos e músicas soltas desde a década passada. Mas, quando primeiro fui apresentado ao artista, a primeira – e talvez a única coisa – que me chamou a atenção foi o seu poderio vocal em contraste com a sua habitual voz.

Não poderia se negar que o potencial de um grande vocalista estava ali, e o seu último pequeno projeto, o extended play IT MUST BE LOVE, elevava a expectativa daqueles que acompanhavam a sua carreira com um bom conjunto de músicas, com clara influência gospel de Sampha, a cadência harmoniosa de um antigo – hoje perdido – Miguel. Ele se apresentava como um dos pertencentes claros à nova safra do R&B, mesclando-o bem com o pop e, de alguma forma, a soul music.

Apresentado MEMORIA, in blue, acredito que ter-se tornado um refém da expectativa seja o maior defeito do projeto. Em projetos estendidos, há uma certa consciência de que os artistas devem se mostrar ousados, extremos o suficiente até para haver o teste de limites, de valências e defeitos, do que é ótimo e do que não funciona. MEMORIA, in blue soa e é apenas uma extensão do antigo extended play, e isso não é um bom sinal.

Mesmo com um claro conceito apresentado e singles que demonstraram leves elevações de qualidade, seja pela mixagem bem mais orgânica e a harmonia vocal entrando em sintonia com a potência, o extended play tem uma clara valia maior por não só mostrar um vocalista muito mais ousado do que um artista confortável. Noah é contido aqui. Ele se retém entre flutuações que vão de instrumentais minimalistas de palmas e um piano harmônico em “RIGHT WITH ME” até a acústica e desinteressante “CÉZANNE”. Não há pontos altíssimos, nem pontos de queda; ele só se mantém o mesmo, com leves pontos de potencialidade, com a já vista e dançante “HIGHER”, com a clara certeza de ser o ponto alto do álbum.

A percepção que temos é a de um artista que ainda está se descobrindo, mas que não ousa ir até o extremo para colher os possíveis frutos que possam existir no ponto mais alto. O ouvinte não sente que precisa ouvir, mas que é legal e agradável. O que diferencia um artista de um cantor é a busca por algo a mais, a necessidade de se destacar e criar uma demanda maior por seu trabalho. Noah fica apenas no degrau do potencial para esse tipo de ideia, mas falha – não miseravelmente – ao não se mostrar interessado nisso. MEMORIA, in blue é conveniente, mas não interessante o suficiente para te prender. Ele soa harmonioso e bonito em uma primeira escuta, mas te deixa com uma sensação de "só isso?" Tinha algo a mais, mas Noah não é ousado o suficiente. Ainda, eu espero.

Selo: 10K Projects
Formato: LP
Gênero: R&B / Pop

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