Crítica | Girlfriend


★★★★

A cada dois dias, tem um artista de música pop expandindo sua carreira, deixando o espaço pequeno que um dia ocupou para, enfim, fazer algo grande. Crescer, numericamente, neste sentido, pressupõe mudar o seu som, suas ideias e suas marcas. Isso, enquanto artistas grandes se tornam pequenos, seja pela dificuldade em se manter em alta no sucesso comercial da música, seja pelo desejo de sair das rédeas da “indústria”. Quase nunca existe um artista que fique no meio disso tudo (se existe, talvez não seja necessariamente pop). Grace Ives é muito pequena. Ela cresceu bastante em 2022, sim, quando lançou Janky Star, mas ainda é muito pequena; suas músicas são pequenas, seus temas são pequenos, suas produções são pequenas. E isso está longe de ser um demérito. Ser pequeno hoje, em tempos de expansividade exagerada, em tempos de LUX, em tempos de THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE., é algo muito grande.

O novo álbum de Grace Ives, Girlfriend, é um passo adiante no que ela sempre fez. Dá a impressão de que, em sua carreira, seus discos são como escadas que vão, cada vez mais, levando sua abordagem pequena a um novo patamar, sem deixar de ser pequena. O disco é propositalmente desajustado; seus sons viajam por uma paleta tão própria que só faz sentido no contexto de Grace e de suas obsessões temporárias, que ela dá vida através das paredes do seu quarto. É como se ela criasse mundos fictícios cujo drama do personagem principal é animado por fragmentos de pop dos anos 2000 e uma ruma de pequenos elementos que são a marca de Grace: letras que têm um som próprio (“Mm, hm, mm”), palavras cantadas com balanço de sussurros e versos percussivos (“And I want, want, want and I take, take, take”). São elementos presentes no single “Avalanche”, que marca o ritmo num crescendo que logo desmorona, como numa avalanche mesmo. Aqui, Grace explora a sua especialidade narrativa: a fragilidade das suas relações e a sensação de que ela está sempre à beira de um precipício emocional.

A coisa mais interessante, para quem sempre acompanhou Grace, é que aqui ela busca uma variedade de recursos que deem vida às suas músicas, mas lembre-se, tudo permanece pequeno. Se antes o uso extensivo do Roland MC-505 demarcava uma repetição em suas faixas postadas nos anos 80, com teor de produção contemporânea e ideias de ritmo atuais do indie pop, agora os sintetizadores são colocados com um viés ainda mais repetitivo, porém com ideias tão diferentes que nem notamos sua presença. Isso faz com que Girlfriend seja um disco cheio de improvisos, com momentos que parecem exceder a métrica de um som pensado para causar algum tipo de sedução pop, que viaja por dedilhados de piano soltos (“Fire 2”) ou por uma atmosfera afável e doce, guiada por acordes de folk (“Now I’m”). Em todo o caso, há o synthpop remanescente dos anos 2010, que chama atenção por partir de uma abordagem contida, como em “My Mans”, que explode em um aceno a Lorde. “Tell me where I lost my way completely / I'd be his shadow just to have his back / Every single guy I meet completes me / I need a lover who can love me back”, desabafa, enquanto a música termina com um farfalhar de instrumentos, um toque ambiente que remenda, costura e traça esses improvisos.

É lindo ouvir coisas assim, que foram feitas sem a intenção de causar, obrigatoriamente, um sentimento, mas porque alguém pensou: “Uau, vamos colocar isso aqui, porque apenas combina”. É uma simplicidade que faz falta e que só ocorre aqui porque o pop, pequeno, de Grace Ives permite que ela o faça. As percussões de “Neither You Nor I”, com arranhões, evoluem junto dos vocais quase abafados dela, pairando entre passado e futuro, num verniz característico de sua recomposição nostálgica. Há, no meio da música, alguns rudimentos instrumentais dissonantes que parecem aleatórios, mas não são. Nada aqui é. Por isso, um dos grandes momentos, “Dance With Me”, usa violinos distorcidos para introduzir uma batida crua que remete muito a Janky Star, enquanto dedilhados borbulhantes invadem o tom da música, que é pequena, mas muito eficaz em ser um pop perfeito. Quando o refrão surge, não faltam dúvidas do quanto Grace Ives sabe dominar a pequenez das melhores coisas da música pop.

Selo: True Panther, Capitol 
Formato: LP
Gênero: Pop / Indie Pop

Matheus José

Graduando em Letras, 25 anos. É editor do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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