Crítica | “DISSONÂNCIA”


Os quase seis minutos de “DISSONÂNCIA” não dão espaço para nada além do tremelique que Ashura causa, numa combinação gelatinosa de vocais distorcidos, glitches e batidas frescas que emulam um verdadeiro farfalhar de texturas. O instante em que o nome da música se repete ao longo de partes estratégicas da sua duração, e cuja repetição é levada ao limite, dita o tom explosivo que assume, inclusive em sentido temático. Ou seja, é a distorção da distorção atingindo o limite do limite, especialmente quando se cria uma espécie de ponte que interliga o começo e o fim da música.

É complexa e, por mais que pareça estranho seu título ser mutilado o tempo todo – brinca com essa mutilação num barulho de vidro estilhaçado –, brilha com uma contração de drops tomados por uma percussão que parece não ter fim. O meio, o miolo, é o melhor de tudo. A verdadeira dissonância parte dali. Como se ali houvesse o encontro do início estranho e o final instrumental. Acena para Verraco nas batidas robustas, enquanto ganha vida própria pelo aparato vocal utilizado. São tantas camadas – e direções – que, se isso tivesse 10 horas de duração, eu seria capaz de ouvir todas as 10 horas sem hesitar, desde que Ashura não tema dilacerar-se, como faz aqui.

Selo: Independente
Formato: Single
Gênero: Eletrônica / Experimental


Matheus José

Graduando em Letras, 25 anos. É editor do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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