Entrevista | DJ LLORÓN fala sobre novo álbum e suas inspirações na cultura ballroom


No baile de rua que movimenta a periferia de Itapetininga, DJ LLORÓN busca construir pontes entre o funk e a ballroom, e comenta sobre sua trajetória entre Minas e São Paulo.

Taboãozinho, TBZ e Casinhas, entre outros. Estes são alguns dos nomes pelos quais o maior conjunto de bairros periféricos de Itapetininga é conhecido. A comunidade, que divide espaço com dois condomínios e loteamentos, não para de crescer, assim como a zona urbana e demais bairros que compõem a margem baixa-renda da cidade. É neste cenário, onde eu moro, que DJ LLORÓN costuma vir tocar em um baile de rua – na rua da minha casa, inclusive – organizado por uma adega (Adega das Casinhas) e que movimenta pessoas de todos os cantos.

O baile é um típico baile de rua, com dezenas de pessoas, fluxo intenso de motos e vários carros de som, que dividem espaço com o paredão do DJ quando toca, posicionados com o volume no máximo, cada um tocando a sua própria música. Apesar desse movimento revelar a diversidade do funk paulista, com alguns preferindo o bruxaria e outros a ritmada, todos parecem estar ali por um único motivo. E, em uníssono, correspondem a ele: o lazer.

Conforme as comunidades crescem, cresce também a demanda por lazer. E, numa cidade rica como esta, regada a eventos fechados e até elitizados, é no baile de rua das Casinhas que a população mais pobre encontra esse espaço. Por ser uma atração essencial, DJ LLORÓN logo chamou minha atenção. Foi então, em uma de suas vindas pra cá, que resolvi chamá-lo para bater um papo.

Foi no baile do dia 14 de março, quase à meia-noite, que eu e Gustavo Venancio Moura, de 27 anos, demos início a uma conversa que viria a acabar somente pelas 5 horas da manhã. Começamos a conversar numa praça, descendo a rua íngreme, uma subida cansativa que, mesmo gigantesca, ainda mantinha o ruído da festa. Foram perguntas e respostas, algo bem padrão, frente a frente em um dos bancos. O barulho atrapalhou a captação do áudio, o que não foi problema, visto que a conversa seguiu para o melhor momento: quando subimos a ladeira rumo ao baile. Foi lá, no meio dos sons, das pessoas, com dificuldade de falar e ouvir, que tivemos a melhor conversa.

Natural de Itapetininga, o DJ mudou-se muito jovem para estudar. Ele conta que quando viu já residia em Viçosa, município da Zona da Mata Mineira, em Minas Gerais. É lá que Gustavo passou a tocar como DJ e acabou tendo contato direto com a cultura ballroom, que tem se intensificado no Brasil especialmente após a pandemia. É neste contexto que surge o excelente e novo álbum do DJ, Baile da Ballroom, lançado na semana em que conversamos.


O álbum

Movido por um som diferente, mesmo se considerarmos a união do funk com estilos comuns dentro da cultura ballroom, como o voguebeat, DJ LLORÓN criou um híbrido preciso e que condensa suas habilidades como DJ, produtor e compositor, e também sua vivência em duas culturas que busca referenciar aqui. “Não é um álbum de voguebeat. Não é um álbum de voguefunk, é um álbum que une artistas da ballroom e do funk”, ele faz questão de deixar claro no comunicado de lançamento do disco. E complementa dizendo:

Meu álbum é essencialmente da cultura ballroom com o funk, e o que me motivou a fazê-lo é justamente a vivência que eu tive enquanto DJ de ball e de baile funk. Eu sempre reparei que esses dois universos, essas duas culturas, são muito semelhantes entre si, né. São duas culturas de resistência. Muitas das pessoas que estão nas balls, a maioria, fazem parte da cultura do funk, e amam muito o funk. Foi basicamente isso; juntando com artistas que somaram na minha trajetória e que eu sou fã. Ao juntar essas duas culturas tem muitas referências ali, né, do vogue beat por assim dizer e do funk, por isso acabo reunindo outras referências, principalmente com cada artista que trampei junto.


Sobre fazer algo diferente neste álbum, perceptível com a escuta, e com apoio que recebeu no processo, ele puxa uma memória ainda recente, mas que o marcou profundamente: “Eu queria fazer algo diferente, algo que tivesse o que eu estava vivendo na cena ballroom que faço parte lá na Zona da Mata Mineira. Então minha família de lá, que me acolheu, a minha mãe Nini, sempre me incentivou a tocar”.

Há, nesse ponto, uma camada que condiz com tudo o que ele faz, que ressoa durante toda a conversa: o pertencimento. Não apenas à cidade onde nasceu, mas aos espaços que o formaram artisticamente. Viçosa torna-se aqui um território cujo funk encontra outras linguagens musicais que o DJ não só guardou para si, como faz questão de lembrar o tempo todo. E é justamente dessa travessia que Baile da Ballroom parece nascer, como sendo uma consequência direta da sua vivência. Pergunto, então, qual é o peso disso tudo, dessa mistura, dessa experiência, desse trânsito, numa cena em ascensão como a de Itapetininga que cresce junto com suas periferias, e no próprio interior de São Paulo. Ele pensa, como se buscasse não cair em qualquer tipo de afirmação vazia:

“A verdade é que eu não sei responder. Eu espero muito, de coração, que sim. Que tenha algum impacto. A gente, enquanto artista, quer muito que a nossa arte chegue nas pessoas, que impacte elas de uma forma positiva, traga reflexões e enfim.”

A resposta, embora simples, carrega um tipo de honestidade que se repete ao longo de toda a conversa. Pude notar que não há tentativa do DJ de se colocar como protagonista de uma transformação, mas sim como parte de um processo maior, algo que está acontecendo – e que, no baile, eu pessoalmente senti que está chegando – independente de qualquer individualidade.


Ballroom, representatividade e parceria

A estética ballroom, como se sabe, tem uma história profundamente enraizada na cultura LGBTQIA+ e em manifestações musicais de raízes negras. Pergunto se as participações no álbum – como Miuk, Veggie e outros nomes – funcionam como uma forma consciente de dialogar com essa herança.

Na cultura ballroom o protagonismo sempre deve ser esse. Mas eu vejo que no meu álbum isso aconteceu de uma forma muito natural, porque todas e todos artistas que estão presentes são artistas que eu realmente sou fã. Então não escolhi nenhum artista por conta do recorte. Foi natural eu trampar com artistas que sou fã e que fomentam muito essa cultura, né. E que acreditam muito no meu trampo, e sempre somaram imensamente pra mim, enquanto artista.


A naturalidade de que ele fala, porém, passa longe de ser despolitizada, muito pelo contrário. Ela mostra um circuito em que as escolhas não precisam ser forçadas para que representem algo maior. O recorte já existe porque os contatos já estão formados, atuantes, vivos entre si, assim como a palavra que ele mais diz sobre suas relações na criação do álbum: família. “A ballroom é uma cultura de casa, de família”, exclama. É de lá que vem seu apoio, mas também do seu núcleo familiar mais próximo, que o incentivou desde sempre, é o caso da sua mãe Mirian e do seu pai Samuel.


Durante vários momentos, trocamos opiniões e posicionamentos pessoais, seja sobre música no geral (incluindo o funk e suas vertentes), ou mesmo sobre a importância de espaços seguros para a comunidade LGBTQIA+, que compõe um pedaço simbólico das principais festas do segmento hoje. Por isso resolvi aprofundar essas questões, partindo do pressuposto do funk ser o gênero mais indomável da música brasileira, justamente por sua capacidade de absorver, dialogar e devolver influências. Com conexões profundas com diferentes minorias, incluindo a comunidade LGBTQIA+, pergunto como ele enxerga esse diálogo. Ele responde como se não buscasse dar voltas, teorizar ou explicar demais o que pensa, e sim o faz com prática, como quase tudo naquela noite:

“Mano, isso já acontece, né. Não é algo que vai acontecer. Já tá acontecendo há muito tempo. As pessoas tão ali, tão vivendo, tão dançando, tão criando. O funk sempre foi isso, sempre foi de quem faz, de quem vive. Então acho que é mais sobre respeitar isso e fortalecer.”

O Baile das Casinhas

Voltamos então onde tudo aquilo se sustenta naquela madrugada. Pergunto: o que diferencia um baile daqui com o de outros lugares?

“A dança e o estilo”, ele responde. “Cada lugar tem um som diferente, uma dança diferente. Aqui em São Paulo é comum nos bailes ver o pessoal balançar mais o ombro, já em BH, Minas como um todo também, eles são mais sintonizados no passinho deles, dançam em sincronia, mexem os pés juntos. Por isso, onde eu vou, sempre tento colocar algo local, misturar o que eles ouvem com o que geralmente não ouvem.”

“Você viu que eu fui lá em Porto Alegre, e lá eles curtiram bastante o som ballroom que eu faço, além dos estilos mais de São Paulo e tal.”

A ideia de adaptação segundo o DJ é parte essencial do trabalho. Não se trata de impor um som, mas de construir uma ponte entre referências, entre o que ele domina e o que ele ouve. E, pela conversa, percebi que além de eclético, ele também tem uma percepção musical apurada em termos de formalidade. Interrompo: então o público não estranha?

“Depende. Eu sempre fico mais atento na pista, sentir o que as pessoas estão curtindo ou não. É assim que eu monto o set, colocando um pouco do funk daqui, um pouco do funk de lá, os instrumentos que eu geralmente toco (como o cavaquinho, que chamou minha atenção) pra ter um pouco de tudo também.”

Ele ri antes de completar:

“Não dá pra chegar lá (Minas Gerais) só tocando funk de São Paulo, assim como não dá pra ir no Helipa, que mesmo sendo baile de rua é mais fechado, e tocar um funk que eles não estão acostumados.”

Noto que DJ LLORÓN tem uma visão de pista muito democrática, principalmente considerando alguns rachas internos entre DJs especialmente de São Paulo, que parecem viver uma queda de braço infinita sobre quem domina melhor ou quem determina certa vertente, ou quem está “estragando” o funk por apostar em experimentações e estilos mais fora da caixinha. Aproveito para emendar uma pergunta rápida, mas muito curiosa. Se alguém vai a um baile pela primeira vez, o que precisa sentir?

Tem que sentir as músicas, as escolhas. Sentir a brisa. Entrar dentro daquele lugar, independente se for uma rua… porque lá na capital os bailes de rua são assim, em becos, e o som chega a fazer eco. Mas se for uma casa, tem que tentar sentir o mesmo. Esvaziar a cabeça e curtir o momento.


Não é como se LLORÓN tratasse tudo de uma perspectiva solta, mas o que pude perceber em momentos como esse é como ele busca se entregar, e fazer com que o ouvinte e o público da pista também se entreguem.

E para quem está lendo: por que colar num baile como esse?

“Pra ver como é um baile mesmo. Aqui é o Baile das Casinhas, Taboãozinho. Porque, pô, é outra coisa você vir aqui, ouvir um som tocando falando do baile daqui, sabe? Tem potencial pra caralho. O sentimento é outro, não adianta.”

Ele se empolga, gesticula, olha ao redor como quem tenta explicar algo que só faz sentido estando ali:

“Eu toco em muitos bailes, toquei Virada Cultural de BH e pá… mas o sentimento de ter tocado aqui pela primeira vez, sério, foi literalmente um sentimento parecido de quando toquei numa primeira ball. É algo que, tipo, tudo faz sentido. Tudo tá pago. Todo o esforço, todas as brisas… porra, é isso, sabe? Eu me sinto realizado.”

Há uma inversão nessa fala, pois acabamos entrando num papo extenso demais sobre os lugares onde o funk se cria, onde tocar, como tocar, como viver com o funk. Para ele, então percebi, o “chegar lá” não está nos grandes eventos ou festivais, mas em locais como onde estávamos ali, conversando.

“Claro que eventualmente eu quero ganhar dinheiro, viver mais confortavelmente, né. Mas artisticamente, aqui, é só lapidar o que já aconteceu. Todo mundo tem uma de ‘ah, eu quero tocar no Lollapalooza’. Não. Eu quero tocar aqui mesmo, na minha cidade, e nas ballroom.”


Humildade e indicações

Pergunto se isso é ser pé no chão.

Pra caralho. Tipo assim, eu estudo também, né. Junto a história da música. E eu sei que, de fato, a história da música tá aqui, no baile. Não tá no Lollapalooza, não tá nesses lugares. Então, pra mim, é importante ter essa vivência de cultura.

Essa talvez seja uma das chaves de leitura mais importantes de tudo o que foi dito até aqui. Não como oposição direta aos grandes eventos, mas como reposicionamento do que se entende por centralidade cultural.

Se pudesse escolher um artista hoje para trabalhar junto, quem seria?

“BA$$AN
, responde sem hesitar. “Ela é uma inspiração, por tudo o que representa e tem feito também.”

Peço, por fim, indicações. Ele demora. Olha para longe como se, por alguns segundos, se desligasse completamente do entorno, o que é difícil, considerando a movimentação constante.

“Vou começar por um filme… Clímax, do Gaspar Noé. Nossa, esse filme me deu uma visão de curiosidade da ballroom que eu nem sabia. Quando assisti aquilo me marcou.”

Pausa.

“E pra ouvir… Nelson Cavaquinho.”

Na hora, fiquei surpreso, pois tive um delay para relacionar algum motivo dele gostar de Nelson Cavaquinho, e logo me lembrei da sua habilidade com instrumentos musicais variados, inclusive o cavaquinho. Na onda, acabei indicando um disco também, Malando 5 Estrelas, do Índio da Cuíca. Por fim, o que acabei percebendo mesmo, é que a escolha dele, aparentemente distante do universo do funk e da ballroom, na verdade fecha um ciclo de vivência e emoção, que senti em momentos quando o assunto envolvia esse lado pessoal, o seu retorno pra Itapetininga.

“Alguém chegar e falar que veio pra te ouvir tocar, é outra coisa, o sentimento é outro”, ele comenta sobre tocar aqui na cidade onde nasceu.

A partir deste momento, já passa das quatro da manhã. O fluxo do baile continua intenso, com gente chegando sem parar. Algumas motos vão embora, outras chegam. Os carros de som seguem ligados, insistentes conforme a minha sede ia tomando conta do meu corpo – eu havia levado uma garrafa, fui preparado como qualquer diabético, mas a água já estava morna. O que se mantinha fresco ali era o grave, que continuava atravessando o corpo. A entrevista, que começou como apenas uma entrevista, já não é mais. Virou outra coisa. Talvez o próprio baile.

E, como ele disse, é ali que tudo faz sentido.
Matheus José

Graduando em Letras, 25 anos. É editor do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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