Clássicos do aquele tuim | 6Kiss (2009)


★★★

O ano é 2009, e a internet começava a assumir seu caráter globalizado, interligando pessoas que anteriormente jamais teriam a chance de se conhecer, tornando-as distantes apenas a um clique. Muito mais que aproximar, a internet deu espaço para que pessoas que geralmente não tinham uma certa voz ou ideias que eram excluídas do conhecimento popular tomassem uma visibilidade maior, chegando em pessoas com gostos similares e visões semelhantes.

Foi assim que Brandon Christopher, alcunhado como Lil B, começou a demonstrar não a sua capacidade lírica até que mediana, mas a sua criatividade e a arte de simplesmente ser fiel a si mesmo. A característica que mais chama a atenção do rapper é a sua coragem de se manter fiel em uma indústria que influencia aqueles que pertencem a ela a mudarem as suas opiniões, gostos, vestimentas e pensamentos. O rapper se tornou uma figura controversa não só pelas suas opiniões acerca do mundo, mas por conta do quão veraz ele era em relação àquilo que o construiu.

Quando ele crava o nascimento do rap na icônica faixa introdutória “Birth of Rap”, ele demarca uma nova era no hip hop, uma era de criatividade e de diversidade, com linhas incisivas que demonstram muito mais do que um braggadocio raso, mas de liberdade e independência, como fez com a distribuição de suas músicas e vídeos, de forma gratuita e por meio do seu website.

6Kiss nasceu do desejo de um jovem negro em mostrar a sua criatividade, a sua visão de mundo e a confiança que o fez sobreviver até hoje com a intenção de inspirar inúmeros jovens que antes se prendiam a imagens inalcançáveis de magnatas, produtores e antigos malfeitores que utilizaram o hip hop como forma de ascensão social. Lil B não buscava ascensão social, ele buscava apenas motivar uma legião de pessoas que se mostravam similares a ele e que precisavam de alguém para empurrá-las até a grandeza espacial. É daí que 6Kiss se torna um clássico não só da música, mas do avanço tecnológico do mundo moderno.

Mas não só da persona o álbum vive, ele é um resultado direto de experimentações do artista que teve ajuda de inúmeros produtores que hoje se tornaram peças vitais de como o hip hop é visto atualmente. Nomes como Just Blaze, Juicy J e Clams Casino ajudam a condensar a mescla entre o hip hop da costa leste com a experimentação etérea que acabou se tornando o cloud rap. A partir desse álbum, o hip hop da costa leste se divide por completo, saindo da convenção das rimas mais potentes para um lado mais melódico, sem perder completamente a essência. É aqui que o gênero que potencializou nomes como Yung Lean, A$AP Rocky e até Travis Scott de uma forma mais direta, mas com nomes como Tyler, The Creator sendo influenciados de forma mais indireta por conta da forma como o rapper se apresentava para o grande público.

Nos dias atuais, o álbum pode soar datado por conta de sua mixagem duvidosa em algumas faixas e a falta de acrobacia lírica de Lil B, que não era o mais exímio rapper, mas em contraste, não falta carisma e criatividade na forma como Lil B se apresenta.

De “Birth of Rap” até “Finna Hit a Lick”, Christopher nos leva a uma viagem bastante esquisita, mas gratificante, na mente de um jovem com um sonho. Cito aqui as suas palavras em “I’m God”, esta considerada a trigésima sétima faixa mais importante na história do hip hop da costa leste, quando diz que ele merece a coroa porque fala com o público que ninguém quer ouvir. Se você der play e ouvir algo que sente que já escutou mais alguma vez, não estranhe, a fonte de inspiração está aqui. 6Kiss não é só um álbum, mas é o pedaço do avanço musical dentro do hip hop.

Selo: Independente
Formato: Mixtape
Gênero: Hip Hop / Cloud Rap, West Coast

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