Crítica | Funkhall Style


★★★★

Ouvindo Bradock, Vol. 1, é impressionante notar como esse disco não envelheceu absolutamente nada, mantendo suas faixas com um som divino aos ouvidos e cravando-se no currículo de DJ JEJEDAZS como um inegável ponto de virada na sua produção e percepção artística. Apenas um ano depois, ele consegue alcançar um novo ápice com Funkhall Style, um trabalho que subverte o que já conhecíamos — ou achávamos que conhecíamos — sobre o DJ, deixando um pouco de lado aquela produção puramente catártica para dar ênfase a uma atmosfera muito mais lapidada e premeditada.

Não que a produção barulhenta, explosiva e desconstruída do seu projeto anterior seja um demérito, muito pelo contrário, mas o foco aqui se desloca para a construção de uma simbiose afiada entre o dancehall e o funk, onde quem realmente dita o ritmo das faixas é o dancehall. Para fazer essas engrenagens girarem com tanta precisão, a presença do trapper e produtor Kayn é fundamental; ele já vinha mostrando um trabalho excelente com o gênero desde Músicas Pra Descer Até O Chão, Vol.1, mas é indiscutível que a sua parceria com JEJEDAZS neste disco atinge níveis muito mais altos, pois se trata de uma obra que pega uma tendência atual (o que chamam de “funkhall”) e impõe certa profundidade que, no diálogo com o funk, havia sido pouco expressa até então.

Essa veia colaborativa pulsa forte durante toda a mixtape, sobretudo por trazer parcerias nas oitos faixas com os nomes mais diversos possíveis, indo desde DJ Greg da ZL a DJ Syncr0, que contribuem para a construção de uma linguagem que se comprova pela fusão de estruturas funk com as características estéticas do dancehall, como se cada parte trouxesse a sua própria perspectiva e dialogassem para encontrar um terreno comum na mistura final. Essa quantidade de participações tinha tudo para criar uma confusão de objetivos bem grande, mas surpreendentemente nunca saímos do eixo e da sensação de estar ouvindo músicas que espelham a força de combinação entre polos que se assemelham pela conjuntura em que são formados, trabalhados e expostos ao público. A entrada de Syncr0 em “Terror DanceHall” é um dos maiores destaques do projeto, uma vez que cria um casamento perfeito cujo “Terror” ganha vida através do trabalho (e seu método quase tátil de gerar sensações) entregue pelo convidado, com seus efeitos sonoros entorpecidos pelo medo, enquanto o “DanceHall” brilha com o que a dupla JEJEDAZS e Kayn tem de melhor, resultando numa batida quente e absurdamente dançante.

Ao longo de todo o disco, é possível notar um quarto plano na produção que soa mais barulhento, pegajoso e repetitivo, remetendo diretamente à essência de Bradock, mas que agora é estrategicamente colocado como pano de fundo enquanto Kayn assume o comando do ritmo com o seu dancehall que parece agir nas raízes da onda que instaurou pelo Brasil, e é daí que vem a profundidade de Funkhall Style, pois dá a impressão de envolver uma curadoria, uma pesquisa, um norte que atravessa as camadas mais superficiais que uma tendência pode representar, especialmente no funk, o que acaba por unir o melhor desses dois mundos. Entre os muitos pontos positivos dessa mixtape, a participação de mulheres merece um destaque especial. O funk, por natureza, já carrega um discurso contrário aos falsos bons costumes, rompendo com a demonização do sexo, abraçando corpos marginalizados e celebrando as diferenças para criar um terreno de liberdade. O problema é que nem todas as pessoas conseguem se ver nesse território, não por não gostarem do gênero, mas por observarem que as rédeas do cenário são tomadas em sua grande maioria por homens, fazendo com que as mulheres acabem esbarrando sempre nas mesmas narrativas, principalmente quando o assunto é sexo.

Sabendo de todo esse contexto, ouvir “Vapo Vapo!” com o sample da música “Paty Trem Barbie” da MC Magrella é um acerto muito grande, vez que além das acapellas usadas serem de mulheres, trazendo as suas próprias perspectivas sobre o funk putaria, a presença delas não passa despercebido de forma alguma, pois trata-se, acima de tudo, de um destaque objetivamente necessário. É uma atitude que vai mudar o mundo e o cenário de uma vez por todas? Talvez não imediatamente, mas dentro da bolha criativa que JEJEDAZS e Kayn constroem, essa atitude pode sim trazer mudanças e, pensando num cenário mais generalizado, pelo menos já funciona como um ótimo começo.

Por fim, o experimentalismo de gênero que a dupla propõe ao fundir dancehall com funk dá muito certo justamente porque o funk é apreciado através da produção de uma maneira muito selecionada, algo que fica evidente na escolha de usar poucas acapellas ao longo do projeto. Este é o seu fator determinante e que pode, futuramente, influenciar outros DJs de funk interessados em lançar discos (EPs, álbuns ou mixtapes) focados nesta mescla. Finalizo pontuando o quanto o funk continua sendo um campo de experimentação e criatividade sem limites. Em poucos anos, vimos tantas vertentes fascinantes surgirem, desde o funk bruxaria até essas mutações mais formais com a música eletrônica, que se torna sempre revigorante acompanhar essa cena. Com esse trabalho, DJ JEJEDAZS consegue, por mais um ano, confirmar sua presença na lista de melhores lançamentos, dividindo esse mérito merecidamente com Kayn.

Formato: Mixtape
Genêro: Funk / Dancehall
Antonio Rivers

Me chamo Antonio Rivers, graduando em História, amazonense nascido em 2006. Faço parte do Aquele Tuim, nas curadorias de Experimental, Eletrônica, R&B e Soul.

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