Crítica | Written into Changes


★★

Às vezes eu me pergunto o quão difícil deve ser criar melodias, produzir algum som que não apenas crie sentidos para ser absorvido – e sentido pelas pessoas –, mas que soe bem, que tenha um recheio e que vá além de aparências que, dada a nitidez em muitos casos, são desinteressantes, afinal, qual o prazer de ouvir a mesma coisa que é feita por diferentes pessoas? Avalon Emerson & the Charm parece dar um gostinho de como se faz isso, de como criar músicas tão reconhecíveis, mas ao mesmo tempo ligadas às suas características individuais.

Written into Charm paira sobre a criatividade num estado didático. Talvez por isso acabe também sendo um disco bastante padrão, preso ao seu espécime. Mas Avalon tem um poder especial, um tipo de conhecimento que faz falta hoje em dia. Sua interdisciplinaridade joga com estéticas pop que vão dos anos 90 aos anos 2000, brinca com synths funk (“Eden”) e se afunda em baterias estelares que viajam pelo espaço (“Happy Birthday”). Em todo caso, são músicas que correspondem a uma paleta de cores fincada na nostalgia pop.

Há instantes, como em “God Dawn (Finito)”, em que pausas quase intermináveis de instrumentais oitentistas pairam sobre uma densa névoa de lembranças, como se Avalon buscasse criar ali um transe com o que essas batidas e uma ruma de sintetizadores podem provocar. Se pensarmos em abordagens parecidas, vindas de artistas como Carly Rae Jepsen, há que se perceber o quanto as coisas aqui assumem um caráter mais profundo, ou seja, criar e imaginar coisas fora de época (“Country Mouse”), e não apenas contextualizá-las. É brilhante.

A sequência, “How Dare This Beer”, por exemplo, diminui o ritmo, mas segue com sintetizadores efervescentes e um tratamento vocal mais seguro. É por essa combinação, também, que as letras, o aspecto lírico de Written into Charm, ganham um peso em dobro. É um trabalho completo, que não corre riscos, a não ser a propensão de apenas existir como sendo um disco recheado de melodias pop surpreendentes.

Selo: Dead Oceans
Formato: LP
Gênero: Pop / Indie Pop

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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