
★★
Arrisco-me a dizer que a maioria das músicas foi feita em tempos completamente diferentes, em escopos diferentes. Há momentos de completa conexão entre os dois âmbitos, vide “ALL THE LOVE”, com uma ótima performance do príncipe do talkbox, Andre Toutman. Mas também há casos claros de completa dessincronia entre instrumental e rapper, como em “CIRCLES”, faixa cômica que deixa claro o uso de inteligência artificial no processamento dos artistas presentes, o que causa bastante estranhamento no ouvinte e que também implorava por uma performance mais confiante e abrasiva de ambos, que falham miseravelmente.
Mas, fugindo do abismo que era Vultures 2, BULLY consegue a proeza de não haver nenhuma faixa completamente horrenda ou que te faz simplesmente tirar o fone dos ouvidos. Em retrospecto, pode-se dizer que é um dos álbuns mais seguros do artista, com ideias de composição – não necessariamente líricas, mas também melódicas e de ritmo – que já fazem parte do seu portfólio. “PREACHER MAN” tinha o potencial de ser uma das suas grandes faixas, mas o horrendo uso de IA transforma a experiência em uma confissão bizarra entre uma IA e um humano, o que mostra a sua valia com um instrumental bastante criativo.
BULLY é a melhor coisa que Kanye West nos poderia entregar no momento, e eu acredito que isso seja preocupante. Um artista que utilizou da segurança para não transformar uma experiência completamente caótica em algo esquecível é um sinal vermelho em uma carreira de respeito, mas refém de um homem notavelmente perturbado. Kanye soa controlado, afinal, mas longe da forma ideal.
Selo: yzy/gamma.
Formato: LP
Gênero: Hip hop / Rap