
★★★
Entre os destaques, “best.”, com Kalan.FrFr e Cuzzos, aposta em refrões bem posicionados e eficientes. “circus in town” chama atenção pelo vocal que remete à “Love Come Down”, de Evelyn “Champagne” King, criando um diálogo direto com a tradição da black music clássica. Já “only child syndrome” se sustenta em versos densos e diretos, enquanto “muse”, ao samplear “Beautiful”, de Pharrell Williams, funciona como uma menção clara à onda recente de revivals da black music dos anos 2000. Em “the yapper”, com AZ Chike e CUZZOS, a presença de vozes femininas surge com naturalidade e impacto dentro da dinâmica da faixa.
Apesar dos destaques evidentes, opened gates vai além de alguns momentos isolados. Trata-se de um álbum de 15 faixas que demonstra embasamento, cuidado na execução e escolhas coerentes nas participações, reforçando o caráter promissor do projeto como um todo. O disco se mostra particularmente interessante dentro do cenário atual do hip hop, muitas vezes marcado por produções excessivamente lineares. Aqui, nem beats nem vozes disputam espaço — eles se complementam. Há um trabalho consistente de produção e desenvolvimento artístico, especialmente relevante para um nome que ainda está se consolidando na cena. Letras, batidas e sequência de faixas se alinham de forma coesa, criando uma escuta contínua e bem estruturada.
Há uma urbanidade contemporânea muito presente ao longo do projeto, que se mantém deliberadamente distante do mainstream comercial. opened gates é um trabalho de forte presença autoral, tanto na construção sonora quanto na forma como Mark Lux se posiciona artisticamente. A arte da capa funciona como um espetáculo à parte: os portões abertos sob um céu amplo dialogam com a ideia de transição, passagem e possibilidade, reforçando a narrativa de um artista que não celebra a chegada, mas o movimento.
É inevitável que muitos apontem Mark Lux como uma cópia direta de Kendrick Lamar — seja pela lírica, pelo timbre ou pelos flows. E é difícil, de fato, se distanciar completamente dessa comparação. Ainda assim, opened gates sugere que Mark Lux está em um processo de construção identitária que começa a encontrar seus próprios caminhos.
Selo: LISTEN TO THE KIDS
Formato: LP
Gênero: R&B / Rap