Crítica | Pelos Olhos do Mar


★★

Lia de Itamaracá é uma lenda da ilha pernambucana: rainha da ciranda e Patrimônio Vivo de Pernambuco, aos 82 anos ela segue levando o gênero aos palcos. Desde 2023, ela tem se apresentado com Daúde, cantora baiana de MPB com flertes de eletrônica. Amigas desde os anos 90, este é o primeiro trabalho de estúdio que elas fazem juntas. O repertório mostra novas facetas de Lia, que continua enraizada nas tradições da ciranda e do coco, mas agora diluindo o interesse das duas pelo dub e bolero, entre as regravações de clássicos e músicas inéditas de grandes nomes contemporâneos, com Emicida, Céu, Russo Passapusso, Otto e Karina Buhr assinando as composições.

É animador ver essa atualização no repertório de Lia, que fica ainda mais potente com a produção assinada por Marcus Preto e Pupillo, ex-baterista do grupo Nação Zumbi. Em faixas como “Pout-pourri de cocos” e “Se meu amor não chegar nesse São João”, é palpável a mistura dos ritmos tradicionais de Pernambuco com o dub jamaicano que pontuou os trabalhos de Pupillo em sua antiga banda.

Ao longo do projeto é visível o respeito das duas cantoras pelas composições e uma pela outra: entregam os versos com a sinceridade que demandam e os dividem com muita elegância, sem nenhuma eclipsar a outra. Curiosamente, o projeto perde força justamente nas duas faixas solo no meio do álbum. “Galeria do Amor”, composição de Agnaldo Timóteo, e “Quem É?” de Maurilio Lopes e Silvinho, cantadas respectivamente por Daúde e Lia, são dois boleros bem executados, mas que contrastam com o restante do disco não só pelo ritmo mais lento, como também por serem versões pouco ambiciosas, que jogam em fórmulas seguras.

Isso é decepcionante, pois Lia já havia explorado o gênero caribenho de forma excepcional em seu disco anterior, na música “Companheiro Solidão”. O bolero retorna, em melhor forma, na faixa título do novo trabalho, “Pelos Olhos do Mar”, composta por Otto e Pupillo, onde o contraste nas vozes de Daúde e Lia, assim como os coros masculinos pontuais, cria um dinamismo que carrega a canção como uma ciranda.

Mesmo com uma tracklist um pouco irregular, o disco triunfa na ambiciosa tarefa de expandir as possibilidades de uma discografia tão enraizada na tradição da ciranda como é a de Lia, e faz isso com uma produção caprichosa. Ele coloca Lia e Daúde dividindo um espaço merecido dentro da música brasileira contemporânea, e traz curiosidade para os próximos passos das duas cantoras.

Selo: Sesc
Formato: LP
Gênero: Música Brasileira / Ciranda, Coco, Bolero

gambito de rafinha

Formade em Comunicação Social. Tem uma instazine chamada "Gambine" em que documenta a vida cultural em Campinas, SP. No Aquele Tuim integra a curadoria de música brasileira.

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