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A urgência com que constrói aliterações, verdadeiras acrobacias com as palavras, e até com as letras, faz você repensar nomes que ocupavam cadeiras cativas como os maiores liricistas do seu imaginário. Combine isso com batidas repletas de samples que beiram o divino e terás um álbum que soa como um banquete para aqueles que apreciam um bom boombap clássico. Talvez o único problema aqui seja a presença de uma outra voz, a de Boldy James, rapper com um estilo similar, derivado do boombap mais refinado, com samples de vozes femininas e instrumentais bem luxuosos.
O único problema é o desbalanceamento técnico entre ambos. Enquanto Rome entrega versos complexos que literalmente fazem você balançar a cabeça, seja por surpresa ou incredulidade, Boldy deixa a desejar ao tentar complementar ou simplesmente equivaler o terreno que é encontrado. Com uma faixa intro derivada de um diálogo de um clássico tarantinesco, Os Oito Odiados, e uma faixa para cada um, temos 4 músicas com a presença de ambos, e Rome parece passear no parque enquanto constrói esquemas líricos que fazem até o mais capacitado rapper coçar a cabeça, uma consistência absurda que carrega durante toda a sua carreira, derivada da exclusão feita por conterrâneos no início de sua carreira e a necessidade de vencer batalhas de rimas para sobreviver.
Boldy, em contrapartida, soa talvez desinteressado e completamente monótono na construção de seu próprio ambiente. Mesmo com rappers trocando ordens de começo de faixas, o ouvido do ouvinte anseia com êxtase a volta das rimas do londrino enquanto Boldy rima, tornando até a sua faixa própria “Hot Plate” não completamente ruim, mas que não agrega e se torna uma opção completamente pulada. Do outro lado, “Tricky” carrega uma atmosfera soturna já familiar a Rome, o que deixa toda a construção dos seus versos muito mais verossímil e assimilável. Acostumado a trabalhar em conjunto, seja com rappers ou produtores, Rome mostra uma confiança magnífica e difícil de olhar para o lado. A todo tempo, estamos torcendo a nossa face e sentindo as nossas mentes se expandirem a cada frase, a cada rima dentro da rima.
Em um projeto curto, temos o claro exemplo do que seria uma disparidade técnica entre rappers que orbitam praticamente o mesmo universo. É nessa hora, mais ao certo, entre 20 minutos, que vemos que tem a fome necessária e realmente nasceu para orquestrar histórias, pensamentos e ambientes em dezesseis barras ou mais, o que faz um projeto com potencial de ser um deleite musical se tornar apenas show-off completamente desproporcional de Rome
Selo: Mass Appeal
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Boombap, Gangsta Rap.