Clássicos do Aquele Tuim | KISS THE RING (2022)


★★★★

Para aqueles que não têm os olhos atentos a cena de hip hop underground, pode soar estranho quando denotamos que um rapper de trinta e seis anos é associado a um álbum de estreia. Não que o passar do tempo seja um impedimento para quem busca exercer ou viver da arte, mas, para um artista de hip hop, isso pode significar uma pressão maior para realizar um certo impacto. Mas basta aproximarmos mais a nossa lente para vermos os pequenos, mas importantes detalhes.

Rome Streetz não era novo na cena. No ano de lançamento de KISS THE RING, o rapper nativo de Bed-Stuy, berço de gigantes do hip hop como The Notorious B.I.G. e seu grande amigo Jay-Z, já acumulava quase uma década de carreira. Por meio de projetos independentes, formou um público assíduo de fãs oriundos de batalhas de rima e de trabalhos mais intimistas, seja pelo flow bastante cadenciado e quase clínico, seja pelas rimas capazes de dar nós até nos ouvintes mais atentos como se sua qualidade pudesse se equiparar, ou até ir além, da palavra. E não é apenas da terra natal que o atual quarentão herdou as características de seus conterrâneos.

Podemos notar similaridades com ambos já citados se elevarem ao se comparar com eles. Uma das características que mais salta aos olhos é a sua habilidade de simplesmente soar hipnotizante. Inúmeras músicas dão a impressão de que os produtores pediam para o rapper parar de rimar com medo de a faixa rondar os duplos dígitos. Quando cospe rimas, soa como se estivesse respirando, faz parte do seu subconsciente e ele não consegue controlar. É, por isso, impressionante e até preocupante ver um nome tão prolífico e dotado na arte de rimar ter tido o seu nome cotado aos grandes nomes tão tarde assim. Rome Streetz sem dúvida é um dos rappers mais habilidosos da nova década do rap, o que foi a causa que o trouxe para um dos selos mais inovadores dos últimos anos, e o que era excelente chegou a patamares sublimes.

Em qualquer momento em que se der play no disco, veremos o rapper com o seu flow colante e característico dando uma verdadeira palestra de como fazer rap de uma qualidade assustadora. Mesmo que possamos encarar isso como palavras, são palavras que se colam de uma forma magnífica, proferidas de uma forma tão badass quanto às rimas significam. Mesmo com participações de peso, nenhuma se mostra tão poderosa como aquela que rege o álbum. Liricistas capazes como Westside Gunn soam exatamente como sugerem: participações especiais, que servem apenas para respiros ocasionais para que possamos voltar ao espetáculo de Streetz.

O que faz desse projeto um clássico é, antes de tudo, a sua importância. Ele não é conceitual nem necessariamente denso, mas clinicamente pensado e executado, com instrumentais que acompanham e potencializam o flow hipnótico de Rome. Conductor Williams realiza um trabalho exímio ao não apenas equiparar a qualidade das bases à pirotecnia lírica do rapper, como também acrescentar ainda mais luxo ao conjunto, fazendo questão de nos deixar enojados – no melhor sentido possível – com os drumless beats, categoria de instrumentais em que a bateria fica em segundo plano, permitindo que loops e samples dominem a paisagem sonora. Sem a bateria em evidência, o instrumental se torna quase como um céu sem nuvens; e o rapper o preenche com seus dizeres, moldando esse espaço com a liberdade que lhe convém.

KISS THE RING não reinventa nem transforma, mas reforça a nova onda do hip hop que reverencia de forma louvável a base que transformou o rap em potência mundial, popularizado na década de noventa e trouxe nomes como 2PAC, Jay Z e Wu-Tang-Clan ao holofote que há hoje. Com esse projeto, Rome Streetz se torna um nome inegável à qualidade da cena, e que a sua fome de vencer nunca irá se esvair.

Selo: Griselda / EMPIRE
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Rap

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